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sábado, 17 de novembro de 2007

 
O fim de Zenão


Foto de Katarzina Widmanska


Num gesto rápido, com essa destreza de cirurgião-barbeiro de que sempre se vangloriara, entre as outras apreciadas e incertas qualidades de médico, inclinou-se para a frente, dobrando levemente os joelhos, e cortou a veia tibial, situada na face externa do pé esquerdo, num dos habituais sítios da sangria. Endireitou-se logo, muito depressa, apoiando-se no travesseiro, para se precaver da síncope, sempre possível, procurou e golpeou a artéria radial do pulso. A breve e superficial dor causada pelo corte na pele, mal ele a sentiu. Jorraram as fontes; o líquido brotou como sempre, ansioso, dir-se-ia, por escapar aos obscuros labirintos onde, prisioneiro, circula. Zenão deixou pender o braço esquerdo, para favorecer o derramamento. A vitória ainda não era completa; podia acontecer entrar por acaso alguém, e ele ser levado, ligado e a sangrar para a fogueira. Mas cada minuto que passava não deixava de ser um triunfo. Lançou um olhar ao cobertor já escuro de sangue. Compreendia agora a noção grosseira segundo a qual o sangue e a alma são uma e a mesma coisa, pois que alma e sangue se esvaem ao mesmo tempo. Esses velhos erros continham uma singela verdade. Pensou, com algo parecido com um sorriso, que era uma boa altura para completar as suas velhas experiências sobre a sístole e a diástole do coração. Mas os conhecimentos adquiridos não contavam doravante para ele mais do que a lembrança dos acontecimentos ou das criaturas que havia encontrado na vida; estava ainda ligado, por mais alguns momentos, ao delgado fio da pessoa, mas a pessoa, deslastrada, já se não distinguia do ser. Ergueu-se, então, a custo, não porque fosse necessário, mas para provar a si próprio que ainda lhe era possível fazer esse movimento. Muitas vezes lhe acontecera abrir segunda vez uma porta, só para provar a si mesmo que a não tinha fechado para sempre, ou voltar-se novamente para uma pessoa de quem se despedira apenas para negar a finalidade de uma partida, demonstrando com isto a si mesmo a sua pequena liberdade de homem. Desta vez, realizara-se o irreversível.


Marguerite Yourcenar in A obra ao negro, 1968.



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