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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

 
A origem da ignorância nacional



Interrogava-se hoje Vasco Pulido Valente no novo canal TVI24 "de onde terão saído estas criaturas ? De que caverna ?..." referindo-se quer aos púdicos delatores de Braga, quer aos diligentes agentes da PSP que apreenderam os livros na feira ao pé do Bom Jesus. Mas olhe que não, Sr. Dr.... Olhe que não! Não se trata de ETs vivendo em território nacional. A coisa é mais complexa. O que é obvio é que os diligentes agentes agiram a mando do comandante da PSP de Braga que aceitou a queixa. Diz a lei que para ascender ao posto de comandante da PSP é necessário uma licenciatura e conhecimentos culturais vastos. Arrisco-me a pôr as mãos no fogo em como não mais de 1% dos licenciados portugueses — incluíndo engenheiros, médicos, gestores, advogados, etc. — saberá quem foi Courbet, o que pintou e ainda menos terão conhecimento deste quadro e da sua história.
Verdadeiramente a origem da ignorância nacional.



domingo, 22 de fevereiro de 2009

 
Lagoa (1923-2009)



Foi assistente de Barata-Feyo. Estudou em Itália com Marino Marini. Foi meu Professor. Foi meu Amigo. O Poeta das formas transfiguradas:
"Quando acabei o liceu - a minha ideia era ir para Letras ou Direito - fiz aptidão à Universidade mas chumbei. Resolvi preparar-me melhor em História e Filosofia e o professor Agostinho da Silva dava aulas particulares, na sua casa junto ao Jardim Zoológico. Eu sabia da existência dele por uns cadernos que editava à sua custa, obras de difusão cultural. Também editava pequenas biografias. Tinha sido expulso do ensino oficial e ganhava a vida com aulas particulares e essas edições. Um dia ele perguntou-me: o que lhe interessa para além de História e Filosofia? E eu disse-lhe que gostava muito de desenhar. Pediu-me para lhe levar os meus desenhos e quando os viu disse logo: você e eu estamos enganados, a sua vocação é a escultura. Ele não me fechou as portas das Letras, até me disse que tinha um entendimento para uma cultura enraizada na palavra, mas devia seguir a Escultura. E assim fiz."

O mundo está a transformar-se num deserto.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

 
Elogio da sombra


Foto de Lylia Cornelli


A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)
pode ser o tempo da nossa felicidade.
O animal está morto ou quase morto.
Restam o homem e a sua alma.
Vivo entre formas luminosas e vagas
que ainda não são a treva.
Buenos Aires,
que dantes se espraiava em arrabaldes
rumo à planície sem fim,
voltou a ser a Recoleta, o Retiro,
as confusas ruas do bairro Once
e as vacilantes casas velhas
a que ainda chamamos o Sul.
Houve sempre na minha vida demasiadas coisas;
Demócrito de Abdera arrancou os olhos para pensar;
o tempo foi o meu Demócrito.
Esta penumbra é lenta e não dói;
flui por um manso declive
e é parecida com a eternidade.
Os meus amigos não têm rosto,
as mulheres são o que foram há tantos anos,
as esquinas podem ser outras,
não há letras nas páginas dos livros.
Tudo isto deveria amedrontar-me,
mas é uma doçura e um regresso.
Das gerações de textos que há na terra
só terei lido uns poucos,
os que ainda hoje leio na memória,
lendo-os e transformando-os.
Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte
convergem os caminhos que me trouxeram
ao meu secreto centro.
Esses caminhos foram ecos e passos,
mulheres, homens, agonias, ressurreições,
dias e noites,
devaneios e sonhos,
cada ínfimo instante do outrora
e dos outroras do mundo,
a firme espada do dinamarquês e a luz do persa,
os actos dos mortos,
o partilhado amor, as palavras,
Emerson e a neve e tantas coisas.
Agora posso esquecê-las. Chego ao meu centro,
à minha álgebra e à minha chave,
ao meu espelho.
Em breve saberei quem sou.


J. Luis Borges in Elogio da Sombra, 1969.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

 
The Third Mind


John Cage, New River Watercolor Series I, #5, 1988.


Até 19 de Abril, no Guggenheim de Nova York, uma das mais esperadas exposições deste ano: The Third Mind: American Artists Contemplate Asia, 1860–1989.
A exposição aborda a maneira como a cultura norte-americana absorveu e integrou as influências da arte, literatura e filosofia oriental, desde o final do século XIX até ao fim dos anos 80 do século XX, altura em que a globalização vem alterar os modos de transmissão e recepção cultural.
Ver mais aqui e aqui.

 
Do not decree faith on this race




Do not decree faith on this race,
stars, ships and smoke are enough;
it is concerned with things, determines
stars and mathematical infinity,
and a trait, call it trait of love,
emerges more purely from it all.

The heavens hang limp, and stars come loose
from the juncture with moon and night.


Ingeborg Bachmann

sábado, 14 de fevereiro de 2009

 
Sentir-se na Morte




Desejo registar aqui uma experiência que tive há umas noites: ninharia demasiado evanescente e estática para lhe chamar aventura; demasiado irrazoável e sentimental para pensamento. Trata-se de uma cena e da sua palavra: palavra já antes dita por mim, mas não vivida até então com total dedicação. Passo a historiá-la, com os acidentes de tempo e de lugar que a declararam.
Rememoro-a assim. Na tarde que antecedeu essa noite, estive em Barracas: localidade que não visito por hábito e cuja distância das que depois percorri já deu um estranho sabor a esse dia. Na sua noite não tinha destino algum; como estava bom tempo, saí para caminhar e recordar, depois de jantar. Não quis determinar rumo a esta caminhada; procurei uma máxima latitude de probabilidades para não cansar a expectativa com a obrigatória antevisão de uma única delas. Realizei apenas na medida do possível isso a que chamam andar ao acaso; aceitei, sem outro consciente preconceito além do de olhar de soslaio as avenidas ou as ruas largas, os mais obscuros convites da casualidade. Contudo, uma espécie de gravitação familiar afastou-me para uns bairros, de cujo nome quero sempre recordar-me e que exigem reverência ao meu peito. Não quero com isto significar o meu bairro, o preciso âmbito da infância, mas sim as suas ainda misteriosas imediações, confins que possuí inteiramente em palavras e pouco na realidade, vizinhos e mitológicos ao mesmo tempo. O reverso do conhecido, as suas costas, são para mim essas ruas penúltimas, quase tão efectivamente ignoradas como os soterrados alicerces da nossa casa ou o nosso invisível esqueleto. A caminhada deixou-me numa esquina. Aspirei a noite, em sereníssimo ócio de pensar. A visão, nada complicada certamente, parecia simplificada pelo meu cansaço. Irrealizava-a a sua própria tipicidade. A rua era de casas baixas e, embora o seu primeiro significado fosse de pobreza, o segundo era certamente de felicidade. Era do mais pobre e do mais belo que podia haver. Nenhuma casa estava animada na rua; a figueira escurecia sobre um quintal; as cancelas — mais altas que as linhas direitas das paredes — pareciam feitas da mesma substância infinita da noite. O passeio era escarpado sobre a rua, a rua era de terra batida, terra da América ainda não conquistada. Ao fundo, a azinhaga, já descampada, desmoronava-se para o Maldonado. Sobre a terra turva e caótica, uma cerca rosada parecia não albergar a luz do luar, mas sim derramar uma luz íntima. Não haverá melhor maneira de definir a ternura que este rosado.
Fiquei a observar a simplicidade. Pensei, com segurança, em voz alta: "Isto é o mesmo de há trinta anos..." Conjecturei esta data: época recente noutros países, mas já remota neste inconstante lado do mundo. Talvez cantasse um pássaro e senti por ele um carinho infantil, do tamanho de pássaro; mas o mais seguro é que nesse já vertiginoso silêncio não houve outro rumor para além do também intemporal dos grilos. O fácil pensamento "Estou em mil oitocentos e tantos" deixou de ser umas quantas palavras aproximativas e aprofundou-se até à realidade. Senti-me morto, senti-me percebedor abstracto do mundo; indefinido temor imbuído de ciência que é a melhor clareza da metafísica. Não acreditei, isso não, que tinha remontado a presumíveis águas do Tempo; antes me suspeitei possuidor do sentido reticente ou ausente da inconcebível palavra eternidade. Só depois consegui definir essa imaginação.
Escrevo-a, agora, assim: Esta pura representação de factos homogéneos — noite em serenidade, ar límpido, cheiro provinciano da madresilva, terra batida — não é simplesmente idêntica à que houve nessa esquina há tantos anos; sem parecenças nem repetições, é a mesma. O tempo, se pudermos intuir esta identidade, é uma desilusão: para o desintegrar, bastam a indiferença e a inseparabilidade de um momento do seu aparente ontem e de outro momento do seu aparente hoje.
É evidente que o número destes momentos humanos não é infinito. Os elementares — os de sofrimento físico e de gozo físico, os de aproximação do sonho, os de audição de uma só música, os de muita intensidade ou de grande apatia — são mais impessoais ainda. Faço derivar de antemão esta conclusão: a vida é demasiado pobre para não ser também imortal. Mas nem sequer temos a segurança da nossa pobreza, visto que o tempo, facilmente refutável no sensitivo, também não o é no intelectual, de cuja essência parece inseparável o conceito de sucessão. Fique portanto num episódio emocional a vislumbrada ideia e na confessada irresolução desta folha de papel o momento verdadeiro de êxtase e a insinuação possível de eternidade de que esta noite não me foi avara.


Jorge Luis Borges in Outras Inquirições, 1952.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

 
Rubaiyat


Foto de Sophie Chivet


Volte-me à voz a métrica do persa
A recordar que o tempo é a diversa
Trama de sonhos ávidos que somos
E que o secreto Sonhador dispersa.

Volte a afirmar que a carne é a poeira,
O fogo a cinza, o rio a passageira
Imagem tão fugaz das nossas vidas
Que lentamente fogem tão ligeiras.

Volte a afirmar que o árduo monumento
Que a soberba constrói é como o vento
Ao passar, e que à luz inconcebível
De Quem perdura, um século é um momento.

Volte a avisar-me que o rouxinol de ouro
Canta só uma vez neste sonoro
Vértice que há na noite e que os avaros
Astros não nos oferecem seu tesouro.

Volte a lua às palavras que a tua mão
Escreve, tal como volta o temporão
Azul ao teu jardim. A mesma lua
Desse jardim vai procurar-te em vão.

Que sejam sob a lua dessas ternas
Tardes o teu exemplo as cisternas
Em cujo espelho de água se repetem
Umas poucas imagens tão eternas.

Que a lua do persa e os incertos
Ouros desses crepúsculos desertos
Voltem. Hoje é só ontem. És os outros
Cujo rosto é o pó. Tu és os mortos.


Jorge Luis Borges in Elogio da Sombra, 1969.

 
Cy Twombly

Ainda mais uns dias — até 15 de Fevereiro — para ver a grande exposição do ano no Guggenheim de Bilbau: a retrospectiva de Cy Twombly. Ler mais aqui.

 
It's Full of Moons!



Ler mais aqui.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

 
O instante


Foto de Mark Kessell.


Onde estarão os séculos, onde o sonho
Das espadas que os tártaros sonharam,
Onde os sólidos muros que aplanaram,
Onde a árvore de Adão e o outro Lenho?
O presente está só. Mas a memória
Constrói o tempo. Sucessão e engano
É a rotina do relógio. O ano
Nunca é menos vão do que a vã história.
Entre a aurora e a noite há um abismo
De agonias, de luzes, de cuidados;
O rosto que se vê nos desgastados
Espelhos da noite já não é o mesmo.
O hoje fugaz é ténue e é eterno;
Não esperes outro Céu nem outro Inferno.


Jorge Luis Borges in O Outro, O Mesmo, 1964.

 
Antes de Tempo = 5 anos



A todos os leitores que me têm acompanhado ao longo destes últimos cinco anos, o meu muito obrigado.

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