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segunda-feira, 31 de julho de 2006

 
Formas novas de História

Novas formas de pensar, registar e escrever a História. Aqui. A História feita de histórias. Milhões de histórias. Reunião do disperso ou apenas a valorização de fragmentos irrelevantes?

 
Retorno de Pasárgada


Foto de Lilya Corneli


Do que vi, do que fiz, do que compus, do que andei
nos palácios, nas ilhas, nas selvas, nos astros da rainha do rei,
só ficou este repleto silêncio, a unânime solidão
que escorre, negro luar, de dentro para fora,
e desce a rampa onde enterrei a aurora.
De tudo, na tristeza de cinza de cada mão,
trouxe uma flor defunta e, na profundidade do meu chão,
dura lágrima que não usarei.


Abgar Renault in A outra face da lua, 1983.

domingo, 30 de julho de 2006

 
Jean Ferdinand Willumsen


Dans une blanchisserie française, 1889


Du symbolisme à l'expressionnisme, Willumsen (1863-1958), un artiste danois é a exposição que pode ser vista este Verão no d'Orsay, dedicada a mais um notável e esquecido pintor da primeira metade do século XX. Nascido em Copenhague, em 1863, Willumsen vem para Paris em 1890 onde toma contacto com a obra de Odilon Redon por intermédio de Theo van Gogh. No mesmo ano conhece Gauguin na Bretagne, quando viaja até Pont-Aven e Pouldu. Todas estas experiências influenciam determinantemente a sua pintura que passa de uma abordagem naturalista para uma maneira simbolista e, mais tarde, marcadamente expressionista. Willumsen, para além de pintor, é um notável gravador, fotógrafo e ceramista. Morre em Cannet, em 1958, aos 95 anos.
A exposição pode ser vista até 17 de Setembro.


La soupe du soir, 1918

sábado, 29 de julho de 2006

 
Depois...


Foto de Katarzina Widmanska


Para onde irão depois as coisas que aprendi?
Por exemplo: aquele cálculo de pi.
Que será feito daqueles restos de saudade,
destes medos antigos sempre novos?
Em que voltas desaparecerão os sonhos
que enfeitaram de flores o quintal antigo?
Por que caminhos irão andar aqueles ágeis pés?
Sobretudo, como se esvaziará de som a velha voz
e onde afundará o último verde daquela flama esguia?


Abgar Renault in Obra poética, 1990.

sexta-feira, 28 de julho de 2006

 
Estamos por aqui, distraídos...

Estamos por aqui, distraídos, sem quaisquer trabalhos de vida. O bloganço assim interrompido é um sossego precioso. Não há saudades. Do lado de cá do mar a noite circula, choradinha de arrufos. Não se vê ministro nem candidatos carnais ao ofício (tá descansado, ó A. Costa!). Ao longo do dia, cada vez mais rectos e espirituosos, "havemos de supliciar livros / e nas piscinas roubar velhotas". Temos braços vigorosos e a mão firme. No resto ainda temos talento & arte para a luminosa que nos tem cativa. Não há queixas à gerência, dizem-nos. Estamos de sentinela. Copacabana é um túmulo.


Pelo que se descobre nestes idos de Julho, aí na paróquia Socrática & cousa para durar nos dias estrelados do ISCTE (a velha corporação que lava melhor) ou até nos puxa-saco dos jornais, a efusão dos amigos da Ministra da Educação nessa bem-aventurança dos exames em eduquês, tem sido de choro desvalido. Mesmo anteriormente avisados, os amigos da Ministra juram que da incompetência sai sempre a linha justa, aprumada, responsável, séria. Eis a doença infantil do eduquês. E mesmo que a bagunça seja total nas Escolas, os devotos admiradores da Ministra acreditam. Coisa sublime!

Entretanto, os mesmos & os outros activistas militantes persistem numa retórica sobre o ódio e no discurso do fascínio da guerra. Em nosso nome, a palavra vazia, a loucura do presente e a barbárie, presentes no Líbano e em Israel, e que esses escribas indígenas reinventam entre a angústia do espectáculo mediático e a soberba ideológica, asseguram-nos que "o mais belo espectáculo de horror somos nós". Não têm emenda. O nosso inferno é esta insanidade da estética de guerra, é este cansaço de tanta comunicação, é esta vida ser, sempre, um eterno vídeo-game. Mas que queiram, em nosso nome, incendiar corações, instalar pesadelos, exigir caminhadas vilmente desfraldadas de um lado contra o outro ou vice-versa, não o podemos consentir. Aprendemos há muito que as noites já não são de luar e o "futuro já não é aquilo que era". E sim, ainda há olhares envergonhados em cada manhã. Os nossos.

in O almocreve das petas, hoje.

 
A ler

Ana Margarida de Carvalho: O céu dos pardais, estúpido! Resistir à indiferença.

 
A ler

Pierre Assouline: Les livres se font la malle. Livros para férias.

 
Portugal, trespassa-se...ainda

O Ministério da Cultura apoiou o centro de Belgais, da pianista Maria João Pires, dedicado ao estudo das artes, com 65 mil euros, em 2003, mas até ao momento a aplicação da verba "nunca foi justificada", informou hoje o gabinete de Isabel Pires de Lima. (notícia do Público).

Isabel Pires de Lima nunca deve ter posto os pés em Belgais, como era, aliás, sua obrigação enquanto ministra da cultura. Se o tivesse feito teria vergonha de fazer notar que em 2003 o Ministério da Cultura apenas apoiou o centro de Belgais com 13 mil contos e ainda mais vergonha de levantar suspeita quanto à aplicação de uma mísera verba no âmbito de um investimento de milhões de euros feito, em grande parte, a título pessoal e não retributivo.
Seria interessante o Ministério justificar, por exemplo, os critérios e o processo de aquisição de obras de arte onde, seguramente, dispende ao longo de cada ano muito mais dinheiro dos contribuintes sem que estes conheçam sequer qual a estratégia de aquisições do Ministério. Tudo se passa a título mais ou menos "pessoal", como convém.

 
Portugal, trespassa-se



O DN dá hoje a notícia. Já ontem tinha havido este anúncio na entrevista à Antena 2. Maria João Pires baixa os braços. O projecto fabuloso de Belgais será abandonado. Anos e anos de más vontades, pequenas invejas, ostracismo e boicote por parte do poder, em particular do poder cultural que, neste país, continua entregue a pequenos feudos que repartem entre si os dinheiros, as influências, as oportunidades, minando tudo aquilo que não controlam e acabando por conseguir, em grande parte dos casos, destruír projectos, minimizando ideias, artistas e carreiras — principalmente aqueles que, como Maria João Pires, se recusam a fazer a vénia aos grupos de influência e têm a coragem de chamar os bois pelos nomes (e, aqui, a expressão é literal).
Tanto se fala dos jogos de poder e de influência nas esferas da política ou da justiça e se esquece a vergonha que, ao longo das últimas décadas, tem sido a vida cultural deste pobre país, entregue a meia dúzia de caciques que se apropriam de todos os meios, de todas as oportunidades, quase sempre com a complacência do poder político.
Quem, como eu, teve a oportunidade de conhecer e modestamente colaborar com Belgais, sabe o que estava ali em jogo. Sabe do fabuloso investimento que foi feito e o espírito de dádiva com que foi feito. Sabe do projecto e do sonho que estava ali presente. Sabe dos ideais estéticos e éticos que o sustentavam. Sabe da imensa humildade e espírito de resignação com que era levado. Sabe o quanto os media nacionais menosprezaram Belgais, ridicularizando-se a si mesmos, fazendo o favor de, anual e displicentemente, divulgar pequenas notícias. Esta desproporção entre o apoio e interesse que Belgais suscitava internacionalmente e o constante silêncio nacional era evidente para quem lá chegava e, invariávelmente, "tropeçava" em equipas da televisão alemã, sueca ou dinamarquesa fazendo documentários e filmes sobre o centro de Belgais ou as visitas e apoio financeiro vindos do Japão, dos pianos Yamaha. A Maria João encarava toda esta pompa e circunstância que internacionalmente o projecto de Belgais suscitava com a simplicidade que a caracteriza e, noites inteiras no club (quem lá esteve sabe do que estou a falar), repetia de forma sempre resignada mas desgostosa o pouco apoio e as canalhices que aqui lhe faziam.
O projecto de Belgais vai para S. Salvador da Baía. Há muitos anos atrás, também foi lá que o projecto universitário de Agostinho da Silva se concretizou. Portugal, trespassa-se. Fica entregue aos caciques.

 
Jordan McKenzie



Na Spacex, em Exeter, inaugura amanhã uma exposição de Jordan McKenzie intitulada Vitruvian: Drawing Works. McKenzie trata aqui, neste conjunto de desenhos, o problema da proporção, tomando como ponto de partida o homem Vitruviano de Leonardo mas assumindo o próprio corpo como medida da proporção. McKenzie reflecte, assim, sobre o acto de desenhar. A exposição pode ser vista até 23 de Setembro.

 
9a. Cantiga de Acordar Mulher


Foto de Katarzina Widmanska


Um dia te acharás
sem inteirar a casa:
ouvirás o marido ressonando,
os filhos dormindo em calma...
O espelho te acenará,
te lembrará coisas da mocidade,
coisas da meninice,
te mostrará vindas algumas rugas;
contemplarás o espelho,
o quarto, a casa;
perguntarás por ti mesma,
pelo teu próprio destino
— e o espelho fará silêncio:
será o sinal de estares acordando.


Geir Campos in Cantigas de acordar mulher, 1964.

quinta-feira, 27 de julho de 2006

 
Eyes Wide Shut

Alguns intelectuais da nossa praça têm vindo, nos últimos dias, a erguer um veemente protesto em relação aos ataques israelitas no sul do Líbano. Estes protestos vão da mais ostensiva condenação à mais moderada e envergonhada acusação, remetendo para as ideias de desproporção da resposta israelita. Também na blogosfera, Vital Moreira, por exemplo, no Causa Nossa escreve post atrás de post condenando a desproporção da resposta e a suposta "azelhice" da força aérea israelita. Devo confessar que o que me tem surpreendido nos últimos dias é, de facto, a desproporção mas em sentido contrário. O que me tem surpreendido é a resposta contida e quase cirúrgica de Israel.
A palavra de ordem em Israel, desde a sua fundação, é defesa. O estado judaico vive rodeado de países inimigos que têm como objectivo a aniquilação da sua existência. A defesa de um país como Israel tem, necessáriamente, que ser feita para além das suas fronteiras. Basta olhar para um mapa para se entender a vulnerabilidade daquele país.
O Hezbollah é uma organização terrorista que desencadeou ataques contra Israel, tomando, igualmente, de forma prepotente, a autoridade do governo libanês, legítimamente eleito, para os desencadear a partir de território libanês e arrogando-se, assim, da prerrogativa do governo de controlar o seu território e tomar decisões de guerra e paz.
O bombardeamento de bairros periféricos de Beirute não é, seguramente, um mero jogo de perícia da força aérea israelita. Todos sabemos que Israel tem, provavelmente, os melhores serviços secretos do mundo. Obviamente que há que lamentar a morte de alguns inocentes. Mas os bombardeamentos cirúrgicos da força aérea israelita correspondem, seguramente, a informações precisas sobre a localização das células do Hezbollah.
Esta noite foi anunciado na Sic Notícias a declaração da Al Quaeda relativamente ao seu envolvimento e à sua participação neste conflito. Lembro, aqui, aquilo que Bin Laden escreveu em 1998:
(...)So now they come to annihilate what is left of this people and to humiliate their Muslim neighbors.
Third, if the Americans' aims behind these wars are religious and economic, the aim is also to serve the Jews' petty state and divert attention from its occupation of Jerusalem and murder of Muslims there.
A Al Quaeda, ao contrário de alguns dos nossos intelectuais, está absolutamente consciente de que o estado de Israel é, efectivamente, o primeiro bastião de defesa do Ocidente. E será sempre um alvo prioritário a aniquilar numa guerra santa. Infelizmente, estamos a perder a guerra. De olhos bem fechados.

 
8a. Cantiga de Acordar Mulher


Foto de Katarzina Widmanska


Vozes da esquerda, surdas,
e vozes da direita, afinadíssimas,
hão de louvar-te a arte
de ser mulher:
mansa como uma ovelha,
jeitosa como uma gata de luxo,
dócil e generosa como uma árvore
a se multiplicar em sombra e frutos,
como uma estátua impassível,
hábil de acordo com as conveniências,
e acima disso
crente em ser esse o teu ideal de vida...
Acorda: pois foi essa
a sorte que escolheste?


Geir Campos in Cantigas de acordar mulher, 1964.

quarta-feira, 26 de julho de 2006

 
A ler

Hoje no DN: Vasco Graça Moura, As esquerdas anti-semitas.

 
Noite afora


Foto de Katarzina Widmanska


A quem devo dizer que em tua carne
se sobreleva o tempo e o duradouro,
mancha de óleo no azul, alaga e intensifica
o contratempo a que chamei amor?

A quem devo dizer dos meus perigos
quando, o corcel furioso, olhei ao longe
e não vi mais limites que o oceano
nem mais convites que o das ondas frias?

Como antepor o corte nas montanhas
— Liberdade — ao dever que a si mesma impõe a terra
de estender-se conforme o espaço havido?

Malícia do destino, ardil composto outrora...
Arde a grama da noite em que te vais embora,
e essa chama caminha, essa chama, essas vinhas,

essas uvas, cortadas noite afora.


Renata Pallottini in Noite Afora, 1978.

 
Correio da Cassini



A sombra do pequeno Epimetheus na pele do gigante. Intimidades...

terça-feira, 25 de julho de 2006

 
Ouvindo:

Keith Jarrett - Over the Rainbow


 
A ler

Hoje no DN: Adriano Moreira, A falência da dissuasão.

sexta-feira, 21 de julho de 2006

 
Elegia a Lígia


Foto de Angelicatas


Lígia, teu nome de elegia
Te dá ao corpo moço um ar antigo
E cria em meu ouvido lento ritmo
Que me arrasta o absorto espírito
Para o verso e sua inútil tortura.

Torso de ânfora esguia!
Só o que amou deveras um quadro, um vaso, um objeto precioso,
Pode sentir o relevo suave do teu ventre,
Corpo de mulher,
Forma antiga e novíssima.

Perdoa aos poetas que te desnudam, te divinizam, te prostituem.
Em meus versos inteira te possuo.
Que importa a fêmea que se nega?
Transformada em poema,
Amo-te ainda mais!
Ajoelho agarrado a teus joelhos,
Não com palavras de fé
Mas impudente e irreverente
Profanando mas adorando
A tua imagem desfigurada.


Dante Milano in Poesias, 1948.

quinta-feira, 20 de julho de 2006

 
Carta


Foto de Katarzina Widmanska


Quisera escrever-lhe com uma letrinha
redonda e bonita de aluna
de Escola Normal.
Ia dizendo que sinto saudades, mas não
é bem isso. O que sinto é uma agonia
dolorosa, porque a gente sabe que
não dá para matar.
Ia dizendo que o amo,
mas é assim que se entrega uma vida?
Ia terminando com um "eternamente sua",
mas quem sabe se você me quererá para
sempre?


Laís Corrêa de Araújo in Caderno de poesia, 1951.

quarta-feira, 19 de julho de 2006

 
Blogger... de vez em quando.

Com o blogger "em baixo" desde esta madrugada (para nova manutenção), torna-se quase impossível registar o que quer que seja hoje. O upload de imagens está quase sempre bloqueado e, quando funciona, não as publica depois. Ficará, assim, para mais tarde a publicação de nova poesia nesta muito tímida homenagem aos poetas da chamada Terceira geração do Modernismo brasileiro: João Cabral de Melo Neto, Murilo Mendes, Vinicius de Moraes, Renata Pallottini, Tasso da Silveira, etc.

 
Correio da Cassini



Rhea e Enceladus descobertos pela luz reflectida de Saturno. Intimidades...

terça-feira, 18 de julho de 2006

 
Cântico dos Cânticos - 2:16


Foto de Katarzina Widmanska




(O meu amor é meu e eu sou dele; ele apascenta
o seu rebanho entre os lírios.)

O meu amor é meu e eu sou dele.
O linho horizontal é nossa casa
e eu me aninho a dormir sob sua asa;
amo-o com minha boca e minha pele.

Ele é quem vela, e não me diz que vele
porque sua é a chama e minha a brasa.
O seu fervor ao meu fervor se casa,
clara coma de luz que nos impele.

Desci ao campo raso: ele é meu campo
onde me deito e a erva se derrama;
é meu olhar que voa, pirilampo.

Sem terra irei por terra: ele me chama.
Vou sem saber por onde, ao mar ou monte.
Sem sua boca eu já não sei ser fonte.



28-09-59


Renata Pallottini in Livro de Sonetos, 1961.

segunda-feira, 17 de julho de 2006

 
Ouvindo:

John Coltrane - Naima

 
HOT/COLD – SUMMER LOVING



Durante este Verão a Zacheta National Gallery of Art, em Varsóvia, apresenta Hot/Cold - Summer Loving, uma exposição com obras de Adel Abdessemed, Dan Acostioaei e Ann Wodinski, Pilar Albarracín, Robert Arnold, Miroslaw Balka, Louise Bourgeois, Jirí Cernicky, Tracy Emin, Andrea Fraser, Leszek Golec&Tatiana Czekalska, Jesper Just, Agnieszka Kalinowska, Zbigniew Libera, Mads Lynnerup, Jadwiga Sawicka e Aleksandra Ska, dedicada ao carácter plural do amor tal como se manifesta nas sociedades contemporâneas. Para quem puder dar um salto à Polónia, a não perder.

 
Soneto de devoção


Foto de Katarzina Widmanska


Essa mulher que se arremessa, fria
E lúbrica aos meus braços, e nos seios
Me arrebata e me beija e balbucia
Versos, votos de amor e nomes feios.

Essa mulher, flor de melancolia
Que se ri dos meus pálidos receios
A única entre todas a quem dei
Os carinhos que nunca a outra daria.

Essa mulher que a cada amor proclama
A miséria e a grandeza de quem ama
E guarda a marca dos meus dentes nela.

Essa mulher é um mundo! – uma cadela
Talvez... – mas na moldura de uma cama
Nunca mulher nenhuma foi tão bela!


Rio de Janeiro, 1938

Vinicius de Moraes in Novos Poemas/in Antologia Poética/in Livro de Sonetos/in Poesia completa e prosa: "A saudade do cotidiano"

sexta-feira, 14 de julho de 2006

 
Paisagem pelo Telefone


Foto de Lilya Corneli



Sempre que no telefone
me falavas, eu diria
que falavas de uma sala
toda de luz invadida,

sala que pelas janelas,
duzentas, se oferecia
a alguma manhã de praia,
mais manhã porque marinha,

a alguma manhã de praia
no prumo do meio-dia,
meio-dia mineral
de uma praia nordestina,

Nordeste de Pernambuco,
onde as manhãs são mais limpas,
Pernambuco do Recife,
de Piedade, de Olinda,

sempre povoado de velas,
brancas, ao sol estendidas,
de jangadas, que são velas
mais brancas porque salinas,

que, como muros caiados
possuem luz intestina,
pois não é o sol que as veste
e tampouco as ilumina,

mais bem, somente as desveste
de toda sombra ou neblina,
deixando que livres brilhem
os cristais que dentro tinham.

Pois, assim, no telefone
tua voz me parecia
como se de tal manhã
estivesse envolvida,

fresca e clara, como se
telefonasses despida,
ou, se vestida, somente
de roupa de banho, mínima,

e que por mínima, pouco
de tua luz própria tira,
e até mais, quando falavas
no telefone, eu diria

que estavas de todo nua,
só de teu banho vestida,
que é quando tu estás mais clara
pois a água nada embacia,

sim, como o sol sobre a cal
seis estrofes mais acima,
a água clara não te acende:
libera a luz que já tinhas.


João Cabral de Melo Neto in Quaderna, 1960.

quinta-feira, 13 de julho de 2006

 
Energia, novamente

Há cerca de dois anos macei os leitores deste blog com a minha visão, eventualmente pessimista (espero), sobre o problema que, quanto a mim, é prioritário no início deste novo milénio: o problema do fim de um ciclo energético e as forças presentes, no tabuleiro dos interesses à escala planetária, pretendentes à gestão de uma nova ordem energética.
O problema da energia é o problema prioritário da espécie humana à face do planeta. Sempre o foi. Ao contrário de outras espécies que co-habitam connosco, a espécie humana é móvel. Necessitamos de movimento. A grande invenção da espécie, para fazer face a esta sua particularidade não foi, obviamente, a roda, como se ensinava às criancinhas, mas sim a estrada, a via, o caminho. Esta estrada, toma hoje em dia, proporções inimagináveis há cem anos atrás: são as estradas e auto-estradas virtuais da web, são as estradas espaciais que nos ligam, literalmente, a outros mundos. A velocidade estonteante com que o conceito de estrada se tem imposto e alargado nos últimos quarenta anos, precipita o fim deste ciclo energético. Notámos isto, já há muitos anos, em aplicações pragmáticas de carácter militar, em que o problema da autonomia da viagem e a capacidade de percorrer as estradas infinitamente — pelo menos teóricamente — se tornava crucial (lembro aqui os porta-aviões e os submarinos nucleares).
Temos, claramente, a percepção diária do fim de um ciclo galileico de energia finita no dia-a-dia das nossas vidas. O preço e a escassez do petróleo, a estratégia das grandes potências de armazenamento de crude em reservas nunca suficientes é por demais evidente. As chamadas energias alternativas de carácter renovável são, evidentemente ficcionais para responderem às necessidades das sociedades contemporâneas e têm funcionado, junto do grande público, como um ideal ideológico apelativo mas facilmente desmontável em termos reais. Pena é que as organizações ecologistas e ambientais não tenham sobre esta matéria uma visão mais pragmática e realista e continuem, de forma quase infantil, a propôr soluções verdadeiramente incompatíveis com o desenvolvimento das sociedades e as aspirações dos seres humanos. As soluções que propõem, eivadas de ideais políticos, são sempre similares de "curar a doença matando o doente", sem ter uma visão realista sobre a problemática da energia. Todo este panorama intermédio, encobre as verdadeiras forças que se têm alinhado no terreno: por um lado, a solução nuclear que proporcionaria fontes de energia, teóricamente, infinitas para este milénio e que, em termos de investigação técnica, tem vindo a ter desenvolvimentos absolutamente notáveis mas sem capacidade mediática de chegar ao grande público. Por outro, o desenvolvimento da engenharia genética que, com uma margem de imprevisibilidade muito superior, tem tocado a opinião pública pouco pensante e inconsciente dos eventuais efeitos preversos da criação, ao nível da clonagem, de uma nova raça de dispensáveis, de seres supranumerários que executem as tarefas que mais ninguém quererá executar, proporcionando fontes de energia inesgotáveis.
Quem, como eu, recebe mails diários da Science e de outras revistas científicas de grande credibilidade tem a percepção que esta última via, e os interesses que lhe estão subjacentes têm vindo a conquistar terreno de forma evidente em detrimento dos evidentes avanços ao nível da tecnologia nuclear. As cartas para o jogo do milénio estão lançadas. O grande público ainda está adormecido para esta problemática. Tudo, parece, passar-se, ainda, antes de tempo.

quarta-feira, 12 de julho de 2006

 
Nothing



Schirn Kunsthalle Frankfurt apresenta, a partir de hoje e até 1 de Outubro, Nothing, exposição que reúne obras de Art & Language, John Baldessari, Robert Barry, Joseph Beuys, Stefan Brüggemann, James Lee Byars, Martin Creed, Spencer Finch, Ceal Floyer, Tom Friedman, Jeppe Hein, Martin Kippenberger, Joseph Kosuth, Imi Knoebel, Christine Kozlov, Nam June Paik, Karin Sander, Joëlle Tuerlinckx, Luc Tuymans e Remy Zaugg.
Um dos temas caros do Modernismo foi a ideia de vazio. Ela surge já com Malevich e os seus quadrados negros de 1915 e está sempre presente nos conceitos de não-representação, subjacentes a todos os abstraccionismos. Esta ideia de atingir o "ponto zero" da imagem foi seguida obsessivamente por pintores como Reinhardt, o que levou Harold Rosenberg a escrever sobre esse processo: “Rothko […] pulled down the shades, Newman closed the door, and Reinhardt shut off the lights.” Nos anos sessenta, com a arte conceptual, a ideia da negação rapidamente acarretou a ideia da negação da negação e os artistas exploraram, de forma ainda mais profunda, o conceito de vazio. Na sequência da assumpção da arte como produto de uma ideia, todo o jogo se passava ao nível da linguagem. Pós-minimalistas e neo-conceptualistas levam esta ideia da relação da arte com a linguagem às últimas consequências, remetendo a imagem para o nada e pondo em causa o próprio objecto artístico, os seus métodos de produção e a sua visibilidade positiva. Nothing, aborda os últimos quarenta anos deste trabalho e desta pesquisa de redução do visível que tanto preocupou artistas como John Baldessari ou Tom Friedman.

terça-feira, 11 de julho de 2006

 
Correio da... Spirit



Areia vermelha, terra nova, vales e colinas. Tudo familiar...

 
Soneto de despedida


Foto de Angelicatas



Uma lua no céu apareceu
Cheia e branca; foi quando, emocionada
A mulher a meu lado estremeceu
E se entregou sem que eu dissesse nada.

Larguei-as pela jovem madrugada
Ambas cheias e brancas e sem véu
Perdida uma, a outra abandonada
Uma nua na terra, outra no céu.

Mas não partira delas; a mais louca
Apaixonou-me o pensamento; dei-o
Feliz – eu de amor pouco e vida pouca

Mas que tinha deixado em meu enleio
Um sorriso de carne em sua boca
Uma gota de leite no seu seio.


Rio de Janeiro, 1940


Vinicius de Moraes in Poemas, sonetos e baladas
in Antologia Poética
in Livro de Sonetos
in Poesia completa e prosa: "O encontro do cotidiano"

 
Pascual Sisto



Na Telic Arts Exchange, em Los Angeles, pode ser vista, até 31 de Agosto, a dupla instalação do artista espanhol Pascual Sisto nesta sua primeira apresentação nos Estados Unidos. Sisto trabalha na área do vídeo e as duas obras apresentadas — Push / Pull e 28 Years in the Implicate Order — exploram a ideia de espaço virtual numa sequência quase hipnótica.

segunda-feira, 10 de julho de 2006

 
Le Grand Café



Le Grand Café — Centre d'Art Contemporain, em Saint-Nazaire, apresenta até 15 de Outubro, a exposição conjunta de Vincent Lamouroux e Geert Goiris. Embora partilhando conceitos formais, os dois artistas expressam-se em diferentes meios. Lamouroux apresenta uma imensa escultura cinética enquanto que Goiris mostra o seu trabalho na área da fotografia.

sábado, 8 de julho de 2006

 
Soneto simples




Chegara enfim o mesmo que partira: a porta aberta e o coração voando ao encontro dos olhos e das mãos. Velhos pássaros, velhas criaturas, algumas cinzas plácidas passando – somente a amiga é como o melro branco!

E enfim partira o mesmo que chegara; o horizonte transpondo o pensamento e nas auroras plácidas passando o doce perfil da amiga adormecida. Desejo de morrer de nostalgia da noite dos vales tristes e perdidos… (foi quando desceu do céu a poesia como um grito de luz nos meus ouvidos…)


Rio de Janeiro, 1938


Vinicius de Moraes in Novos Poemas/in Poesia completa e prosa: "A saudade do cotidiano"

sexta-feira, 7 de julho de 2006

 
Correio da Cassini



Mimas procurando estar só.
Titan, Tethys e Enceladus conferenciando.
Intimidades...



 
Territorial



O Museum für Moderne Kunst de Frankfurt apresenta, até 27 de Agosto, Ghost Valley coming down the Mountain, uma imensa instalação, trabalho conjunto dos artistas — norte-americano e chinês — Serge Spitzer e Ai Weiwei. A instalação remete para modelos de realidade diferenciados.

quinta-feira, 6 de julho de 2006

 
Correio da Cassini



The Golden Giant. É assim o Senhor do Tempo.

 
Sonhos



Este é o sonho da mulher do pescador.
Katsushika Hokusai, 1814.


quarta-feira, 5 de julho de 2006

 
Grafito para Ipólita





1

A tarde consumada, Ipólita desponta.

Ipólita, a putain do fim da infância.
Nascera em Juiz de Fora, a família em Ferrara.

Seus passos feminantes fundam o timbre.
Marcha, parece, ao som do gramofone.

A cabeleira-púbis, perturbante.
Os dedos prolongados em estiletes.

Os lábios escandindo a marselhesa
Do sexo. Os dentes mordem a matéria.

O olho meduseu sacode o espaço.
O corpo transmitindo e recebendo

O desejo o chacal a praga o solferino.
Pudesse eu decifrar sua íntima praça!

Expulsa o sol-e-dó, a professora, o ícone
Só de vê-la passar, meu sangue inobre

Desata as rédeas ao cavalo interno.

2

Quando tarde a revejo, rio usado,
Já a morte lhe prepara a ferramenta.

Deixa o teatro, a matéria fecal.
Pudesse eu libertar seu corpo (Minha cruzada!)

Quem sabe, agora redescobre o viso
Da sua primeira estrela, esquartejada.

3

Por ela meus sentidos progrediram.
Por ela fui voyeur antes do tempo.

4

O dia emagreceu. Ipólita desponta.



Roma 1965

Murilo Mendes in Convergência, 1963/1966.

segunda-feira, 3 de julho de 2006

 
Fronteira


Foto de Lilya Corneli




Há o silêncio das estradas
e o silêncio das estrelas
e um canto de ave, tão branco,
tão branco, que se diria
também ser puro silêncio.
Não vem mensagem do vento,
nem ressonâncias longínquas
de passos passando em vão.
Há um porto de águas paradas
e um barco tão solitário,
que se esqueceu de existir.
Há uma lembrança do mundo
mas tão distante e suspensa...

Há uma saudade da vida
porém tão perdida e vaga,
e há a espera, a infinita espera,
a espera quase presença
da mão de puro mistério
que tomará minha mão
e me levará sonhando
para além deste silêncio,
para além desta aflição.


Tasso da Silveira in Regresso à Origem, 1960.

sábado, 1 de julho de 2006

 
A Lição de Poesia


Foto de Lilya Corneli



1. Toda a manhã consumida
como um sol imóvel
diante da folha em branco:
princípio do mundo, lua nova.

Já não podias desenhar
sequer uma linha;
um nome, sequer uma flor
desabrochava no verão da mesa:

nem no meio-dia iluminado,
cada dia comprado,
do papel, que pode aceitar,
contudo, qualquer mundo.

2. A noite inteira o poeta
em sua mesa, tentando
salvar da morte os monstros
germinados em seu tinteiro.

Monstros, bichos, fantasmas
de palavras, circulando,
urinando sobre o papel,
sujando-o com seu carvão.

Carvão de lápis, carvão
da idéia fixa, carvão
da emoção extinta, carvão
consumido nos sonhos.

3. A luta branca sobre o papel
que o poeta evita,
luta branca onde corre o sangue
de suas veias de água salgada.

A física do susto percebida
entre os gestos diários;
susto das coisas jamais pousadas
porém imóveis — naturezas vivas.

E as vinte palavras recolhidas
nas águas salgadas do poeta
e de que se servirá o poeta
em sua máquina útil.

Vinte palavras sempre as mesmas
de que conhece o funcionamento,
a evaporação, a densidade
menor que a do ar.


João Cabral de Melo Neto in O engenheiro, 1945.

 
Correio da Cassini



Titan, o Sol, Saturno vigiando de perto as interacções. Ciúmes...

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