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segunda-feira, 31 de outubro de 2005

 
Shirin Neshat


Shirin Neshat é uma artista de origem iraniana naturalizada americana. Desde os anos 90 que apresenta um dos mais interessantes trabalhos continuados na área da fotografia e do vídeo. Nesta sua primeira exposição em Berlim apresenta dois vídeos, Mahdokht de 2004 e Zarin de 2005. Estes vídeos inéditos fazem parte do filme Women without Men que a artista rodou baseado no romance do mesmo nome do escritor iraniano Shahrnush Parsipur que, entretanto, foi preso pelo regime iraniano. Para além destes vídeos, a exposição mostra um conjunto de fotografias a preto e branco de grande formato tratando os temas já conhecidos na obra de Neshat tais como os problemas das relações entre sexo e cultura ou a exploração do estatuto de exilado.

Inaugura amanhã no Hamburger Bahnhof em Berlim.

 
O guardião dos livros


Foto de Lylia Corneli


Ali estão os jardins, os templos e a justificação dos templos,
A recta música e as rectas palavras,
Os sessenta e quatro hexagramas,
Os rituais que são a única sabedoria
Outorgada aos homens pelo Firmamento,
A decência desse imperador
Cuja serenidade foi reflectida pelo mundo, o seu espelho,
De maneira que os campos davam os seus frutos
E as torrentes respeitavam as suas margens,
O unicórnio ferido que regressa para assinalar o fim,
As secretas leis eternas,
O concerto do orbe;
Essas coisas ou a sua memória estão nos livros
Que guardo na torre.

Os tártaros vieram do Norte
Em crinados potros pequenos;
Aniquilaram os exércitos
Que o Filho do Céu mandou para castigar a sua impiedade,
Erigiram pirâmides de fogo e cortaram gargantas,
Mataram o preverso e o justo,
Mataram o escravo agrilhoado que vigia a porta,
Usaram e esqueceram as mulheres
E seguiram para Sul,
Inocentes como animais de presa,
Cruéis como facas.
Na alba duvidosa
O pai do meu pai salvou os livros.
Aqui estão na torre onde permaneço
Recordando os dias que foram de outros,
Os alheios e antigos.

Nos meus olhos não há dias. As prateleiras
Estão muito altas e os meus anos não as atingem
Léguas de poeira e sono cercam a torre.
Para quê enganar-me?
A verdade é que nunca soube ler,
Mas consolo-me ao pensar
Que o imaginado e o passado são já a mesma coisa
Para um homem que foi
E que contempla o que foi a cidade
Que agora volta a ser o deserto.
O que me impede de sonhar que uma vez
Decifrei a sabedoria
E desenhei com mão aplicada os símbolos?
O meu nome é Hsiang. Sou o que guarda os livros
Que talvez sejam os últimos
Porque nada sabemos do Império
E do Filho do Céu.
Ali estão nas altas prateleiras,
Longínquos e ao mesmo tempo próximos,
Secretos e visíveis como os astros.
Ali estão os jardins, os templos.

J.L. Borges in Elogio da Sombra, 1969.

sábado, 29 de outubro de 2005

 
Puis qu'il n'est plus question de force


Foto de Lylia Corneli


Tout est brisé par la parole la plus faible
Ombre d'idée idée de l'ombre mort hereuse
Le feu devient eau tiède et le pain est en miettes
Le sang farde un sourir et la foudre une larme
Le plomb caché par l'or pèse sur nos victoires
Nous n'avons rien semé qui ne soit ravagé
Par le bec minutieux des délices intimes
Les ailes rentrent dans l'oiseau pour le fixer

Paul Éluard in Le dur désir de durer, 1946.

 
A ver



Extraordinária entrevista com Catherine Deneuve no canal BBC World, programa Hard Talk Extra. Repete hoje a várias horas diferentes.

sexta-feira, 28 de outubro de 2005

 
O poeta declara a sua nomeada


Foto de Lylia Corneli


O círculo do céu mede-me a glória,
As bibliotecas do Oriente disputam os meus versos,
Os emires procuram-me para me encher de ouro a boca,
Os anjos sabem já de cor a minha última estrofe.
Os meus instrumentos de trabalho são a humilhação e a angústia;
Oxalá tivesse nascido morto.

Do Divã de Abulcasim el Hadrami (século XII)

J. L. Borges in O Fazedor, 1960.

 
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Viaggio leggero – Travelling light




Lumturi Blloshmi, Enrica Borghi, Robert Dragot, Bruna Esposito, Christine de la Garenne, Alban Hajdinaj, Aurelia Mihai, Stefano Romano, Anila Rubiku e Gentian Shkurti são os artistas convidados a mostrar as suas obras na Chiesa di San Paolo em Modena a partir de amanhã. A temática lançada é a da criatividade em sociedades onde impera a pobreza. O problema da falta de materiais tradicionalmente adstritos à actividade plástica e a processos criativos e a forma como os artistas conseguem ultrapassar este problema é aqui o centro deste debate e desta exposição.

 
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A ler

João Miguel Tavares hoje no DN: Greve? Qual greve?

quinta-feira, 27 de outubro de 2005

 
Paradiso, XXXI, 108


Foto de Lylia Corneli

Diodoro Sículo refere a história de um deus despedaçado e disperso. Quem, ao andar pelo crepúsculo ou ao traçar uma data do seu passado, não sentiu alguma vez que se tinha perdido uma coisa infinita?
Os homens perderam uma face, uma face irrecuperável, e todos queriam ser aquele peregrino (sonhado no empíreo, sob a Rosa) que em Roma vê o sudário de Verónica e murmura com fé: "Jesus Cristo, Deus meu, Deus verdadeiro, era assim, pois, a tua face?"
Há uma face de pedra num caminho e uma inscrição que diz "O verdadeiro Retrato da Santa Face do Deus de Jaén"; se realmente soubéssemos como foi, seria nossa a chave das parábolas e saberíamos se o filho do carpinteiro foi também o Filho de Deus.
Paulo viu-o como uma luz que o derrubou; João, como o Sol quando resplandece na sua força; Teresa de Jesus, muitas vezes, banhada em luz tranquila, e não pôde nunca precisar a cor dos olhos.
Perdemos esses traços, como pode perder-se um número mágico, feito de algarismos habituais; como se perde para sempre uma imagem no caleidoscópio. Podemos vê-los e ignorá-los. O perfil de um judeu no subterrâneo é talvez o de Cristo; as mãos que nos dão umas moedas num postigo talvez repitam as que uns soldados, um dia, cravaram na Cruz.
Talvez um traço da face crucificada espreite em cada espelho; talvez a face tenha morrido, se tenha apagado, para que Deus fosse todos.
Quem sabe se esta noite não a veremos nos labirintos do sonho e não o saberemos amanhã.

J. L. Borges in O Fazedor, 1960.

 
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Rineke Dijkstra – Portraits



Depois de Paris e de Barcelona, chega a Amsterdam esta exposição de 75 retratos de Rineke Dijkstra. Esta fotógrafa alemã tem-se dedicado, desde os anos 90, a registar retratos pelo mundo inteiro. A série mais conhecida é a de Beach Portraits. Dijkstra concentra-se no momento em que o sujeito fotografado toma consciência da pose ou está prestes a abandoná-la, procurando assim os elementos de hesitação e insegurança que a linguagem corporal revela. Inaugura no próximo dia 4 de Novembro no Stedelijk Museum, em Amsterdam.


 
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Correio da Cassini



Prometeus sempre foi assim: imprevidente, perturbador, fracturante. Ainda hoje é assim na sua passagem pelos anéis do gigante Saturno.

quarta-feira, 26 de outubro de 2005

 
Curiosidade(?)

Clique aqui e pesquise.

 
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Tankas


Foto de Lylia Corneli


1

Alto no cimo
Todo o jardim é lua,
É lua de ouro.
Mais precioso é roçar
Tua boca na sombra.


2

A voz da ave
Que esta penumbra esconde
Emudeceu.
Andas plo teu jardim.
Qualquer coisa te falta.


3

A alheia taça,
A espada que foi espada
Na outra mão,
A luz dessa rua,
Diz-me, talvez não bastem?


4

À luz da lua
O tigre de ouro e sombra
Olha as suas garras.
Não sabe que na aurora
Destruíram um homem.


5

É triste a chuva
Caindo sobre o mármore,
Triste ser terra.
Triste não ser os dias
Do homem, o sono, a alba.


6

Não ter caído
Como outros do meu sangue
Nessas batalhas.
Ser na noite mais vã
Aquele que conta as sílabas.


J. L. Borges in O Ouro dos Tigres, 1972.

terça-feira, 25 de outubro de 2005

 
Correio da Cassini



Que andarão Epimeteus e Janus a conspirar nestas órbitas tão distantes das órbitas dos outros? Saberá Epimeteus que Prometeus persegue Pandora?

 
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Olafur Eliasson – Notion Motion



Olafur Eliasson, de quem já aqui falámos, inaugurou no passado dia 8 esta instalação nas três salas do Museum Boijmans Van Beuningen em Rotterdam. A obra de Eliasson tem-se vindo a afirmar como extremamente curiosa e inovadora desde a instalação que esteve na Tate Modern em 2003. O trabalho de Eliasson oscila entre a recriação de fenómenos naturais e o diálogo com a tecnologia. Um dos principais objectivos é colocar o espectador consciente da sua própria percepção ou, por outras palavras, tornar a percepção um fenómeno tangível. Nesta instalação em Rotterdam, Eliasson trabalha com a luz e a água apresentada numa escala monumental. O conceito que está aqui presente é novamente o da percepção e a ideia de que, a percepção enquanto fenómeno consciente, acarreta consigo o potencial criativo de mudança.
Até 8 de Janeiro de 2006.

segunda-feira, 24 de outubro de 2005

 
Labirinto


Foto de Lylia Corneli


Nunca haverá uma porta. Estás cá dentro
E a fortaleza abarca o universo
E não possui anverso nem reverso
Nem externo muro nem secreto centro.
Não esperes que o rigor do teu caminho
Que obstinado se bifurca noutro,
E obstinado se bifurca noutro,
Tenha fim. É de ferro o teu destino
Como o juíz. Não esperes a investida
Do touro que é um homem, cuja estranha
Forma plural dá horror à maranha
De interminável pedra entretecida.
Não existe evasão. Nada te espera.
Nem no negro crepúsculo a fera.

J. L. Borges in Elogio da Sombra, 1969.

domingo, 23 de outubro de 2005

 
Correio da Cassini



Velocidade, precisão, resistência. Poderiam ser os atributos publicitários de um relógio suiço. Deus Cronos não os rejeita.

 
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MONIKA BAER



Organizada pela Pinakothek der Moderne em Munique são mostradas agora no Bonnefantenmuseum em Maastricht obras de Monika Baer produzidas entre 1992 e 2005. O Bonnefantenmuseum tem dispensado especial atenção à jovem pintura contemporânea, como comprovam as exposições de Luc Tuymans em 1999, Neo Rauch em 2002 e Peter Doig em 2003. Monika Baer surge no início dos anos 90 produzindo uma pintura caracterizada por uma atmosfera visual de abstracção romântica marcada por um cuidado tratamento da cor, das transparências e das velaturas. Baer trabalha num registo iconográfico híbrido de imagens individuais caracterizado por códigos e metáforas visuais.
Até 29 de Janeiro de 2006.

sábado, 22 de outubro de 2005

 
O labirinto


Foto de Lylia Corneli


Zeus não poderia desatar as redes
de pedra que me cercam. Já esqueci
todos os homens que antes fui; segui
o caminho de insípidas paredes
que é o meu destino. Rectas galerias
que se curvam em círculos secretos
ao fim de muitos anos. Parapeitos
gretados pela erosão dos dias.
Entre a poeira tenho decifrado
rastos que temo. O ar tem-me trazido
nas mais côncavas tardes um bramido
ou o eco de um bramido desolado.
Sei que na sombra há Outro, cuja sorte
é fatigar as tão longas saudades
que tecem e destecem este Hades,
ansiar meu sangue e devorar-me a morte.
Ambos nos procuramos. Quem me dera
fosse este o dia último da espera.

J. L. Borges in Elogio da Sombra, 1969.

sexta-feira, 21 de outubro de 2005

 
Correio da Cassini



Foi preciso esperar uma eternidade para ver Prometeus a perseguir desenfreadamente a sua cunhada Pandora. Onde andará Epimeteus?


 
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JENS WOLF



Le Grand Café, Centre d'Art Contemporain em Saint-Nazaire apresenta a primeira exposição em França de Jens Wolf em mais um projecto de divulgação da jovem pintura contemporânea europeia. Jens Wolf produz uma pintura influenciada por Frank Stella e Barnett Newman mas divergindo em atitude, não procurando neutralizar o plano pictórico. Pelo contrário, Wolf introduz imperfeições nos padrões geométricos, trabalhando sobre suportes rugosos, ampliando a materialidade plástica e a percepção da forma. Cria situações de contraponto entre a dureza dos padrões geométricos e a instabilidade visual da pintura.
Inaugura hoje e poderá ser vista até 31 de Dezembro.

 
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O sono


Foto de Lylia Cornelli


Se o sono fosse (como dizem) uma
Pura trégua ou repouso para a mente,
Porque é que, se te acordam bruscamente,
Sentes que te roubaram a fortuna?
Porque é tão triste madrugar? A hora
Despoja-nos de um dom inconcebível,
Tão íntimo que só é traduzível
Numa modorra que a vigília doira
Com sonhos, que bem podem ser parciais
Reflexos dos tesouros que há na sombra
De um orbe intemporal que não tem nome
E que o dia deforma em seus cristais.
Quem serás esta noite no obscuro
Sono, do outro lado do seu muro?

J. L. Borges in O Outro, o Mesmo, 1964.

quinta-feira, 20 de outubro de 2005

 
Correio da Cassini



Dione acima do plano dos anéis, Saturno como plano de fundo. Cor natural. Sem comentários...

quarta-feira, 19 de outubro de 2005

 
Ouvindo:



Bill Evans, os três CDs de The Complete Live at Village Vanguard 1961, Riverside Records, 2003.

segunda-feira, 17 de outubro de 2005

 
Vergonha nacional

Desta vez parece ser verdade. A Colecção Berardo vai para França. Ainda não se sabe exactamente se para Paris, se para Toulouse. Obviamente os franceses ofereceram todas as possibilidades e facilidades conscientes do valor excepcional de uma colecção que estará entre as melhores de arte contemporânea. Por cá, a estupidez declarada, os pequenos poderes, a ignorância convertida em valor oficial adiaram e inventaram obstáculos durante anos a uma solução definitiva. A instalação da colecção no antigo casino de Sintra, há dez anos, muito embora tenha sido magnificamente reabilitado para o efeito, foi uma solução que se revelou insuficiente e provisória. De lá para cá, o desprezo, o desleixo das autoridades (in)competentes tem sido evidente. Ninguém entendeu porque esta colecção não foi instalada no CCB. Ninguem entendeu as promessas não concretizadas do Pavilhão de Portugal no Parque das Nações. Ainda se entendeu menos a arrogância e o desprezo demonstrados com a hipótese da sua instalação na ruína do antigo museu de Arte Popular, em Belém. Mesmo assim, Berardo aceitou. Aliás foi aceitando todas as sugestões, promessas não concretizadas, cadernos de intenções de sucessivos ministros e primeiro-ministros, exemplos magníficos do nível cultural português. De Cavaco a Sócrates, passando por Guterres, Carrilho, Barroso ou a actual ministra da cultura de quem não se conhece um único comentário sobre este problema, uma das melhores colecções de arte contemporânea europeias, construída criteriosamente por um português, só tem merecido desprezo, desleixo, indiferença. Se esta colecção fôr para França, como tudo indica, será uma vergonha nacional. De quem é a responsabilidade? Neste Portugal dos pequeninos em que a pequena inveja e o jogo do empata imperam, ninguém será responsabilizado. E Portugal continuará a ficar mais pobre. Realmente mais pobre.

 
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Playing the Building
David Byrne



Playing the building é uma instalação de som na qual a infraestrutura do edifício, a planta física do edifício, se converte num imenso instrumento musical. Existem aparelhos ligados aos pilares, às vigas metálicas, às tubagens de aquecimento e água que induzem sons de vibração, de vento, etc. Os aparelhos, própriamente, não produzem sons, antes provocam nos elementos estruturais do edifício vibrações e ressonâncias convertendo todo o edifício num imenso instrumento. Para quem puder dar um salto a Estocolmo, ao Färgfabriken, até 13 de Novembro.

 
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Ouvindo:



Paula Oliveira & Bernardo Moreira, Lisboa que adormece, Universal Music, 2005.

 
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Hino


Foto de Lylia Cornelli


Esta manhã
há no ar a incrível fragrância
das rosas do Paraíso.
Na margem do Eufrates
Adão descobre a frescura da água.
Uma chuva de ouro cai do céu;
é o amor de Zeus.
Salta do mar um peixe
e um homem de Agrigento lembrará
ter sido ele esse peixe.
Na gruta cujo nome será Altamira
dedos sem rosto traçam a curva
de um lombo de bisonte.
A lenta mão de Virgílio acarinha
a seda trazida
do reino do Imperador Amarelo
por naus e caravanas.
O primeiro rouxinol canta na Hungria.
Jesus vê na moeda o perfil de César.
Pitágoras revela aos seus gregos
que a forma do tempo é a do círculo.
Numa ilha do Oceano
os lebréus de prata perseguem os veados de ouro.
Numa bigorna forjam a espada
que será fiel a Sigurd.
Whitman canta Manhattan.
Homero nasce em sete cidades.
Uma donzela acaba de caçar
o unicórnio branco.
Todo o passado volta, é uma onda,
e essas antigas coisas regressam
porque uma mulher te beijou.

J.L.Borges in A cifra, 1981.

domingo, 16 de outubro de 2005

 
Novo imposto

Sugestão ao Senhor Primeiro-Ministro Eng. José Sócrates para ajudar a repôr o equilibrio das contas públicas: IED (imposto sobre a estupidez declarada).
Leia-se Luís Miguel Viana, hoje no DN.

sábado, 15 de outubro de 2005

 
Correio da Cassini



A densa sombra do gigante Saturno provoca um nada no plano dos anéis. Lá longe, Mimas olha o Sol de frente.

 
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Ouvindo:



Eliane Elias, Solos and Duets with Herbie Hancock, Blue Note, 1995.

sexta-feira, 14 de outubro de 2005

 
FAMILY PICTURES



A Galleria Gottardo em Lugano entra pela terceira vez em colaboração com a Fundação Guggenheim, desta vez para mostrar um conjunto de obras que fazem parte da colecção da fundação numa exposição que toma o título Family Pictures com obras de Janine Antoni, Patty Chang, Gregory Crewdson, Rineke Dijkstra, Anna Gaskell, Loretta Lux, Sally Mann, Robert Mapplethorpe, Tracey Moffat, Catherine Opie, Thomas Struth, Hellen van Meene e Gillian Wearing, entre outros. Nas duas colaborações anteriores, a Galleria Gottardo organizou duas exposições Il ritrovo degli artisti, em 2001 e Spiritual Landscape, em 2003. Family Pictures é um conjunto de fotografias e vídeos provocadores e irónicos que abordam aspectos da vida familiar muito para além das tradicionais representações.

 
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Dezassete haiku




1

O que disseram
a tarde e a montanha.
Já o perdi.


2

A vasta noite
agora não é mais
que uma fragrância.


3

É ou não é
o sonho que esqueci
antes da alba?


4

Calam-se as cordas.
A música sabia
tudo o que eu sinto.


5

Já não me alegram
estas amendoeiras.
Tua lembrança.


6

Obscuramente
livros, estampas, chaves
seguem-me a sina.


7

Desde aquele dia
que não movi as peças
no tabuleiro.


8

É no deserto
que acontece a aurora.
Alguém o sabe.


9

A espada ociosa
sonha com as batalhas.
Meu sonho é outro.


10

O homem morreu.
Mas a barba não sabe.
Crescem as unhas.


11

Esta é a mão
que por vezes tocava
o teu cabelo.


12

Sob o alpendre
o espelho não imita
mais do que a lua.


13

Sob essa lua
a sombra que se alarga
é uma só.


14

É um império
essa luz que se apaga
ou um pirilampo?


15

A lua nova.
Ela também a vê
da outra porta.


16

Longe, um trinado.
O rouxinol não sabe
que te consola.


17

A velha mão
insiste em traçar versos
prò esquecimento.


J.L. Borges in A cifra, 1981.

 
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Correio da Cassini



As outras almas dos mortos que partiram estavam de pé
a lamentar-se, contando as desgraças uma a uma.
Só a alma de Ájax, filho de Télamon, permaneceu
afastada, ressabiada por causa da vitória que eu venci
na contenda junto às naus pelas armas de Aquiles,
que sua mãe veneranda designara como prémio.
Dirimiram a contenda jovens Troianos e Palas Atena.
Quem me dera nunca ter ganho aquele prémio!

Homero in Odisseia, Canto XI, 545.

Zeus e Posídon andaram apaixonados por esta filha de Nereu. Preferiram, no entanto, casá-la com um mortal pois a profecia de Témis dizia que o filho gerado por Tétis seria mais poderoso do que o pai. Casaram-na, portanto, com Peleu. O filho de Peleu e Tétis foi Aquiles. Hoje, Tétis continua bela perguntando a Cronos por Aquiles.

quinta-feira, 13 de outubro de 2005

 
Um poeta menor


Foto de Bogdan Jarocki


A meta é o esquecimento.
Eu cheguei antes.

J. L. Borges in A rosa profunda, 1975.

quarta-feira, 12 de outubro de 2005

 
História da noite


Foto de Delphine LeBerre


Sempre ao longo das suas gerações
os homens foram construindo a noite.
Ao princípio era só cegueira e sono
e espinhos que laceram o pé nu
e receio dos lobos.
Nunca saberemos quem forjou a palavra
para o intervalo de sombra
que divide os dois crepúsculos;
nunca saberemos em que século foi sinal
do espaço das estrelas.
Outros engendraram o mito.
Fizeram-na mãe das Parcas tranquilas
que tecem o destino
e sacrificavam-lhe as ovelhas negras
e o galo que adivinha o seu fim.
Doze casas lhe deram os Caldeus;
inifinitos mundos, o Pórtico.
Hexâmetros latinos a moldaram
e o terror de Pascal.
Luis de Léon viu nela a pátria
da sua alma estremecida.
Agora sentimo-la inesgotável
como um vinho velho
e ninhuém pode contemplá-la sem vertigens
e o tempo carregou-a de eternidade.

E pensarmos que não existiria
sem esses frágeis instrumentos, os olhos.

J. L. Borges in História da noite, 1977.

terça-feira, 11 de outubro de 2005

 
WAR IS OVER 1945 – 2005



No GAMeC – Galleria d’Arte Moderna e Contemporanea, em Bergamo, inaugura na próxima sexta-feira, 14 uma imensa exposição sob o título Libertà dell’arte da Picasso a Warhol a Cattelan. A lista de autores é a que se segue:
FRANCIS ALŸS, FRANCIS BACON, ENRICO BAJ, GIACOMO BALLA, MAX BECKMANN, VANESSA BEECROFT, JOSEPH BEUYS, ALIGHIERO BOETTI, CHRISTIAN BOLTANSKI, ALBERTO BURRI, MIRCEA CANTOR, CARLO CARRÀ, MAURIZIO CATTELAN, ENZO CUCCHI, STEPHEN DEAN, BERLINDE DE BRUYCKERE, GIORGIO DE CHIRICO, GINO DE DOMINICIS, JEREMY DELLER, OTTO DIX, ANTONIO DONGHI, SAM DURANT, JAN FABRE, LUCIANO FABRO, JEAN FAUTRIER, LYONEL FEININGER, LUCIO FONTANA, MESCHAC GABA, CARLOS GARAICOA, ALBERTO GARUTTI, KENDELL GEERS, ALBERTO GIACOMETTI, LEON GOLUB, GEORGE GROSZ, RENATO GUTTUSO, DAVID HAMMONS, JOHN HEARTFIELD, JÖRG IMMENDORFF, IRWIN, ALEXEJ JAWLENSKY, JASPER JOHNS, WASSILY KANDINSKY, ANSELM KIEFER, PAUL KLEE, PAUL KLEINSCHMIDT, MARKUS LÜPERTZ, MARIO MAFAI, FABIO MAURI, MARIO MERZ, ZORAN MUSIC, SHIRIN NESHAT, YOKO ONO e JOHN LENNON, ADRIAN PACI, GIULIO PAOLINI, MIMMO PALADINO, PHILIPPE PARRENO, YAN PEI-MING, PABLO PICASSO, ADRIAN PIPER, MICHELANGELO PISTOLETTO, PAOLA PIVI, GERHARD RICHTER, SALVO, MARKUS SCHINWALD, ANDRES SERRANO, GINO SEVERINI, SANTIAGO SIERRA, MARIO SIRONI, GIULIO TURCATO, LUC TUYMANS, PIOTR UKLANSKI, COSTA VECE, EMILIO VEDOVA, VEDOVAMAZZEI, ANDY WARHOL, SISLEJ XHAFA, CHEN ZEN, ARTUR _MIJEWSKI, GILBERTO ZORIO



Shirin Neshat, Careless 1997, 1997.


Até 26 de Fevereiro de 2006.

 
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Correio da Cassini



Pandora, lá longe, vigia a imensidão dos anéis. Tudo aqui é velocidade, precipitação. Como quando Pandora abriu a caixa que Epimeteus, o Previdente, lhe confiou.

 
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Celle de toujours, toute


Foto de Thomas Kreyn


Si je vous dis : " j'ai tout abandonné "
C'est qu'elle n'est pas celle de mon corps,
Je ne m'en suis jamais vanté,
Ce n'est pas vrai
Et la brume de fond où je me meus
Ne sait jamais si j'ai passé.

L'éventail de sa bouche, le reflet de ses yeux,
Je suis le seul à en parler,
je suis le seul qui soit concerné
Par ce miroir si nul où l'air circule à travers moi
Et l'air a un visage aimant, ton visage,
A toi qui n'as pas de nom et que les autres ignorent,
La mer te dit : sur moi, le ciel te dit : sur moi,
Les astres te devinent, les nuages t'imaginent
Et le sang de la générosité
Te porte avec délices.
Je chante la grande joie de te chanter,
La grande joie de t'avoir ou de ne pas t'avoir,
La candeur de t'attendre, l'innocence de te connaitre,

O toi qui supprimes l'oubli, l'espoir et l'ignorance,
Qui supprimes l'absence et qui me mets au monde,
Je chante pour chanter, je t'aime pour chanter
Le mystère où l'amour me crée et se délivre.

Tu es pure, tu es encore plus pure que moi-même.

- entre Oct. 1924 et aout 1926 -

Paul Éluard in Capitale de la douleur.

segunda-feira, 10 de outubro de 2005

 
História dos dois reis e dos dois labirintos


Foto de Sabine Leve


Contam os homens dignos de fé (mas Alá sabe mais) que nos primeiros dias houve um rei das ilhas da Babilónia que juntou os seus arquitectos e magos e os mandou construir um labirinto tão perplexo e subtil que os varões mais prudentes não se aventuravam a entrar e os que entravam perdiam-se. Essa obra era um escândalo, porque a confusão e a maravilha são operações próprias de Deus e não dos homens. Com o andar do tempo veio à sua corte um rei dos Árabes, e o rei da Babilónia (para fazer troça da simplicidade do seu hóspede) fez com que ele penetrasse no labirinto, onde vagueou aflito e confuso até ao declínio da tarde. Então implorou o socorro divino e deu com a porta. Os seus lábios não proferiram qualquer queixa, mas disse ao rei da Babilónia que na Arábia tinha um labirinto melhor, e que se Deus fosse servido, lho mostraria um dia. Depois regressou à Arábia, juntou os seus capitães e os seus alcaides e estragou os reinos da Babilónia com tão venturosa fortuna que derrubou os seus castelos, rompeu as suas gentes e fez cativo o próprio rei. Amarrou-o em cima de um camelo veloz e levou-o para o deserto. Cavalgaram três dias, e disse-lhe: "Oh, rei do tempo e essência e número do século! Na Babilónia quiseste que me perdesse num labirinto de bronze com muitas escadas, portas e muros; agora o Poderoso achou por bem que te mostrasse o meu, onde não há escadas para subir, nem portas para forçar, nem enormes galerias para percorrer, nem muros que te vedem a passagem."
Depois desatou-lhe as ligaduras e abandonou-o no meio do deserto, onde morreu de fome e de sede. A glória esteja com Aquele que não morre.

J. L. Borges in Textos cativos, 1986.

domingo, 9 de outubro de 2005

 
Correio da Cassini



Dione é uma figura estranha. Homero, na Ilíada, diz que ela foi a primeira mulher de Zeus, muito anterior a Hera. Outros autores dizem que, simplesmente, é uma das filhas de Oceanus. Outros ainda afirmam-na como a mãe de Dionísios. Ela está lá. No desigual confronto com Saturno. Infinitamente pequena mas infinitamente bela. Quem foi, afinal, Dione?

 
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Ouvindo:



Aziza Mustafa Zadeh, Dance of Fire, Sony Music, 1995.

sábado, 8 de outubro de 2005

 
Soneto ao Inverno


Foto de Delphine LeBerre


Inverno, doce inverno das manhãs
Translúcidas, tardias e distantes
Propício ao sentimento das irmãs
E ao mistério da carne das amantes:
Quem és tu, que transfiguras as maçãs
Em iluminações dessemelhantes
E enlouqueces as rosas temporãs
Rosa-dos-ventos, rosa dos instantes?

Por que ruflaste as tremulantes asas
Alma do céu? o amor das coisas várias
Fez-te migrar — interno sobre casas!

Anjo tutelar das luminárias
Preservador de santas e de estrelas...
Que importa a noite lúgubre escondê-las?


Londres, 1939.

Vinícios de Morais in Antologia Poética, 2003.

sexta-feira, 7 de outubro de 2005

 
A ler

Ainda a propósito de Portugal, trespassa-se (ou a apologia do riso), João Miguel Tavares, O País e a paróquia, hoje no DN.

 
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Portugal, trespassa-se (ou a apologia do riso)

Há muito que o doloroso e penoso princípio da realidade insiste em esbofetear-nos. A miséria cultural e ética em que vivemos tem como efeito preverso a sistemática exaltação do mau gosto e do patético. Se isto é uma evidência diária, acentua-se quando estão em causa empregos e ainda mais quando esses empregos geram poder. Pequenos e grandes poderes. Narcisismos patológicos, egos esfomeados, uni-vos.














 
Workshop



Maria Augusta Araújo, da Universidade do Porto, solicitou-me a divulgação deste workshop que se realizará no próximo dia 24 no auditório da reitoria da universidade. Subordinado ao tema Conservation of Contemporary Art — Challenges and future needs, é uma organização conjunta do departamento de interdisciplinariedade e da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Orientado pelos Professores Lydia Beerkens e Thea van Oosten, investigadores do Atelier Limburg em Maastricht e do Netherlands Institute for Culture Heritage em Amsterdam, terá também a participação da Prof. Lucia Matos da Faculdade de Artes da Universidade do Porto. A inscrição dos participantes é gratuita e deverá ser feita até dia 20 de Outubro para o email upin@iric.up.pt ou na secretaria da Universidade do Porto.

 
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O punhal


Foto de Delphine LeBerre



A Margarita Bunge


Numa gaveta há um punhal.
Foi forjado em Toledo, nos fins do século passado; Luis Melián Lafinur deu-o ao meu pai, que o trouxe do Uruguai; Evaristo Carriego teve-o uma ou outra vez nas mãos.
Quem o vê tem de brincar um bocado com ele; nota-se que o procuravam há muito; a mão apressa-se a apertar o cabo que a espera; a lâmina obediente e poderosa brinca com precisão na bainha.
Outra coisa quer o punhal.
É mais que uma estrutura feita de metais; os homens pensaram-no e deram-lhe forma para um fim muito preciso; de certo modo é eterno, o punhal que esta noite matou um homem em Tacuarembó e os punhais que mataram César. Quer matar, quer derramar brusco sangue.
Numa gaveta do escritório, no meio de rascunhos e cartas, interminavelmente sonha o punhal o seu simples sonho de tigre, e a mão anima-se quando o segura porque o metal se anima, o metal que pressente em cada contacto o homicida para quem o criaram os homens.
Às vezes dá-me pena. Tanta dureza, tanta fé, tão impassível ou inocente soberba, e os anos passam, inúteis.

J. L. Borges in Evaristo Carriego, 1930.

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