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domingo, 31 de outubro de 2004

 
O Sol, 19 minutos depois do tempo ter andado para trás.



 
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A educação de Pedro



O factor humano



V. Velickovic, Naissance fig. P, 1974, tinta da china, óleo s/ colagem, s/ papel, 75 x 108,2 cm


 
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Correio da Cassini



Novas imagens fantásticas enviadas pela Cassini na sua aproximação a Titan. A pequena lua/planeta de Saturno brilha aqui como um sol fazendo resplandecer a sua densa atmosfera (talvez a mesma que existiu aqui - AQUI - há muitos milhões de anos). Olhando Titan olhamos um passado longínquo: a linguagem do real, a linguagem do simbólico e a linguagem do imaginário cruzam-se AQUI.


 
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Cy Twombly

(des)aprender a desenhar
(1)



Cy Twombly, S/ título, grafite s/ papel, 56x76 cm, 1957.



Twombly seguiu sempre uma "via estreita" (não necessáriamente uma linha recta) que se situa entre impulso e premeditação. Embora marcado pelo expressionismo abstracto, Twombly nunca se mostrou verdadeiramente interessado pelos sistemas ontológicos que pretendiam circunscrever a arte nos limites da sua produção material.
Roland Barthes que escreveu magníficas páginas sobre a obra de Twombly, reconheceu (Sagesse de l'art, vol. V) que Twombly impôs, no seu entendimento do desenho, um efeito mediterrânico a partir de materiais que não tinham qualquer relação analógica com a tradição artística mediterrânica.


Cy Twombly, S/ título, grafite e sanguínea s/ papel, 70x100 cm, 1957.

Embora evocando a antiguidade, Twombly desfaz o mito da geometria celeste, enquanto disciplina exacta, remetento o traço, o riscar, para o plano da protografia, enquanto acto primário da marcação de lugares e expressão do sentimento do mundo. Trata-se, afinal de uma cartografia dos sentidos.
Twombly reabre a questão do desenho enquanto expressão gráfica primordial, anterior aos ritmos que geram a caligrafia.


Cy Twombly, S/ título, pastel e tinta industrial s/ papel, 70x100, 1970.

sexta-feira, 29 de outubro de 2004

 
A educação de Pedro



Francis Bacon, Three Figures in a Room, (1964), Triptico, 198 x 441 cm


quarta-feira, 27 de outubro de 2004

 
Correio da Cassini

Começaram a chegar as imagens fantásticas desta aproximação da Cassini a Titan. Já ontem se previa o que o espectáculo seria. Esta imagem foi recolhida utilizando lentes ultravioleta e de infravermelhos. Na realidade a imagem é uma construção a partir de 4 imagens utilizando diferentes filtros As cores vermelho e verde foram obtidas com lentes de infravermelhos e mostram as áreas onde o metano na atmosfera absorve luz. Estas cores revelam um muito brilhante hemisfério norte. A cor azul foi recolhida com lentes ultravioleta e revela as camadas superiores da atmosfera. Titan tem uma gigantesca atmosfera que se expande por centenas de kilómetros acima da superfície.




Outra imagem espectacular da atmosfera de Titan.



De passagem, a nossa boa Cassini enviou também esta magnífica imagem do hemisfério sul de Saturno.


terça-feira, 26 de outubro de 2004

 
Close Encounter



à medida que a Cassini se vai aproximando de Titan...

segunda-feira, 25 de outubro de 2004

 
A educação de Pedro




SAGREDO - De uma extrema temeridade me pareceram sempre aqueles que querem fazer da inteligência humana a medida do que a natureza pode e sabe operar, enquanto, pelo contrário, não existe na natureza qualquer efeito, por mínimo que seja, de que os espíritos mais especulativos possam atingir pleno conhecimento. Esta vã pretensão de tudo compreender não pode ter outro princípio que o facto de nunca ter compreendido o que quer que fosse, porque aquele a quem tenha acontecido uma única vez compreender perfeitamente uma dada coisa e sentido o gosto do saber sabe também que não percebe nada do resto.

Galileu Galilei
in Diálogo dos Grandes Sistemas (Primeira Jornada).

 
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Porque abrem as coisas alas para eu passar?
Tenho medo de passar entre elas, tão paradas conscientes.
Tenho medo de as deixar atrás de mim a tirarem a Máscara
Mas há sempre coisas atrás de mim.
Sinto a sua ausência de olhos fitar-me, e estremeço.
Sem se mexerem, as paredes vibram-me sentido.
Falam comigo sem voz de dizerem-me as cadeiras.
Os desenhos do pano da mesa têm vida, cada um é um abismo.

Luze a sorrir com visíveis lábios invisíveis
A porta abrindo-se conscientemente
Sem que a mão seja mais que o caminho para abrir-se.
De onde é que estão olhando para mim?
Que coisas incapazes de olhar estão olhando para mim?

Quem espreita de tudo?

As arestas fitam-me.
Sorriem realmente as paredes lisas.

Sensação de ser só a minha espinha.

As espadas.


F. Pessoa in «Episódios», Poesias.



Para breve, alguns textos sobre simbólica.

sábado, 23 de outubro de 2004

 
Diversões (pequenas notas surrealistas)

Assim isso dure!
O espelho é uma maravilhosa testemunha, variando sem cessar. Depõe com calma, com força, mas quando acabou de falar, nota-se que ele corrige acerca de tudo. É a personificação corrente da verdade.
Sobre o caminho ricochete obstinadamente enlaçado às pernas da que volta a partir hoje tal como tornará a partir amanhã, sobre os jazigos ligeiros da despreocupação, mil passos em cada dia casam-se com os passos da véspera. Já se regressou, voltará a regressar-se sem se fazer rogado. Todos passaram por ali, indo da sua alegria à sua mágoa. É um pequeno refúgio com um imenso bico de gáz. Põe-se um pé à frente de outro e aí vamos.
As paredes cobrem-se de quadros, as festas suavizam-se com ramos de flores, o espelho embacia-se de humidade. Quantos faróis sobre um regato e o regato está na vasa do rio. Dois olhos semelhantes, para servir o teu único rosto, - dois olhos cobertos pelas mesmas formigas. O verde está quase uniformemente distribuído pelas plantas, o vento segue as aves, não se corre o risco de ver morrer as pedras. O que se produz não é um animal domesticado, mas um animal domador. Ora! é a ordem imprescritível de uma cerimónia já tão faustosa, em suma! É o revólver de repetição que faz aparecer as flores no vaso, o hálito na boca.
O amor, com o tempo, renuncia tão bem a ver distintamente a noite.
Quando não estás lá, há o teu perfume que me procura. Não consigo fazer com que me restituam senão o oráculo da tua fraqueza. A minha mão na tua mão tão pouco se parecia com a tua mão na minha mão. A infelicidade, vês, a própria infelicidade ganha em ser conhecida. Tinha-te recebido como quinhão, não podes deixar de lá estar, és a prova de que existo. E tudo está de acordo com esta vida que para mim fiz para ter a certeza de ti.
- Em que pensas?
- Em nada.

André Breton
e Paul Éluard in «As mediações».


 
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Correio da Cassini

No próximo dia 26, às 9,30 p.m., "Cassini Titan Close Encounter". A Cassini passará novamente junto de Titan. Esperam-se imagens magníficas.

sexta-feira, 22 de outubro de 2004

 
Diversões (pequenas notas surrealistas)

Uma vida compreendida entre duas outras vidas e, como habitualmente, passo de noite sem estrela, o ventre longo da mulher sobe, é uma pedra e a única visível, a única verdadeira, na cascata. Tudo o que tanta vez se anula, anula-se mais uma vez, tudo o que o longo ventre da mulher tanta vez realiza, para conservar o seu prazer mais puro que o frio de se sentir ausente de si mesma, se realiza mais uma vez. Até não se ouvir a respiração de animal bravio muito perto de si. Não é a dádiva que se gostaria de fazer de uma única moeda deste tesouro desenterrado que não é a vida que se gostaria de ter recebido pois assim como o longo ventre da mulher é o seu ventre, assim o sonho, o único sonho é o de não ter nascido.

André Breton
e Paul Éluard in «A concepção».

quinta-feira, 21 de outubro de 2004

 
Correio da Cassini



This turbulent boundary between two latitudinal bands in Saturn's atmosphere curls repeatedly along its edge in this Cassini image. This pattern is an example of a Kelvin-Helmholtz instability, which occurs when two fluids of different density flow past each other at different speeds. This type of phenomenon should be fairly common on the gas-giant planets given their alternating jets and the different temperatures in their belts and zones.


quarta-feira, 20 de outubro de 2004

 
A incompreensibilidade da política





terça-feira, 19 de outubro de 2004

 
Manifesto Anti-Praxe

Diogo morreu há dois anos. Foi morto durante uma praxe. Entretanto, o processo foi arquivado. Os meninos, que são tão meninos para tanta coisa, inclusivé para protestar contra as propinas que, afinal são os papás que pagam, já não são tão meninos para constituírem uma confraria de mentiras relativamente a um homicídio perfeitamente identificado pelo médico do instituto de medicina legal. Diogo morreu vítima de hematomas vários, nomeadamente ao nível cerebral. Não foi ninguém. Os meninos apenas falam, contradizem-se, justificam-se, toda a gente viu toda a gente e toda a gente nada fez. Apenas o obrigaram a... nada de mais, nada de grave. Mas o Diogo morreu. O pai do Diogo morreu pouco tempo depois. Uma família destruída. Os meninos mantêm as mentiras e os discursos defendendo as "tradicionais" praxes, protegendo-se mutuamente. Canalhas!
No entretanto, nestes últimos dois anos, uma aluna do Instituto Piaget foi violada e maltratada durante uma praxe.
Pergunta-se: porque é que o governo não proíbe definitivamente esta idiotice das praxes nas faculdades?
A tradição da praxe prende-se com iniciados e iniciandos. Iniciandos ou neófitos há sempre. Iniciados há muito tempo que não os há. Noventa e nove vírgula nove por cento dos meninos que andam nas faculdades são um exemplo perfeito de atraso mental simples, gente que não estuda, nada sabe, com meras médias técnicas, absolutos zeros culturais. São estes meninos que querem arrogar-se de uma tradição, qualquer que ela seja??
Parafraseando Fernando Pessoa: Bolas para a gente ter que aturar isto! Ó meninos: estudem, divirtam-se e calem-se. Estudem ciências, se estudam ciências; estudem letras, se estudam letras. Divirtam-se com mulheres, se gostam de mulheres; divirtam-se de outra maneira, se preferem outra. Tudo está certo, porque não passa do corpo de quem se diverte. Mas quanto ao resto, calem-se. Calem-se o mais silenciosamente possível. Porque só há duas maneiras de se ter razão. Uma é calar-se, que é a que convém aos novos. A outra é contradizer-se, mas só alguém de mais idade a pode cometer.
Tudo o resto é uma grande maçada para quem está presente por acaso. E a sociedade em que nascemos é o lugar onde mais por acaso estamos presentes.

 
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A educação de Pedro


- Mas então, ó Trasímaco, as artes governam e dominam aquele a quem pertencem?

Concordou neste ponto, mas muito a custo.

- Portanto, nenhuma ciência procura ou prescreve o que é vantajoso ao mais forte, mas sim ao mais fraco e ao que é por ela governado?

Por fim, concordou também com isto, mas tentou a disputa. Depois de ele dar o seu assentimento, continuei: - Ora nenhum médico, na medida em que médico, procura ou prescreve o que é vantajoso ao médico, mas sim ao doente? Pois concordámos que médico, no sentido rigoroso, é o que governa os corpos, e não o que faz dinheiro com eles. Ou não concordámos?

- Concordámos.

- Logo, também o piloto, no sentido rigoroso, é o chefe dos marinheiros, mas não um marinheiro?

- De acordo.

- Por ventura um piloto e chefe assim há-de examinar e prescrever não o que é vantajoso ao piloto, mas sim ao marinheiro e ao súbdito?

Concordou a custo.

- Portanto, Trasímaco, nenhum chefe, em qualquer lugar de comando, na medida em que é chefe, examina ou prescreve o que é vantajoso a ele mesmo, mas o que o é para o seu subordinado, para o qual exerce a sua profissão, e é tendo esse homem em atenção, e o que lhe é vantajoso e conveniente, que diz o que diz e faz tudo quanto faz.

Platão in A República, Livro I, 342c


 
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Transcrevo para aqui um dos mais notáveis textos de JPP dos últimos tempos, sobre a quinta das "celebridades", radiografia cortante do país que vamos sendo:

A CELEBRIDADE DO LIXO

De um lado, o secreto desejo sádico de ver as “celebridades” na pocilga a comer “lavagem”, algo de obviamente muito popular. Humilhar os ricos e poderosos, mesmo que seja apenas os pobres diabos que em Portugal passam por “celebridades”, é um desporto popular e com sucesso garantido. Do outro lado, a ganância de encontrar o ouro da manutenção da fama fútil, mesmo catando no lixo. Tudo bem. São sentimentos normais numa sociedade em que a pocilga ainda está fresca na memória de uma geração atrás, ou ainda está ao lado da casa de muita gente. A fome ainda é demasiado ancestral, para ser esquecida e a pocilga como expiação, está bem para aquelas “celebridades”, e é uma cena clássica da pornografia hard.
Eu ia mais longe e tenho uma pequena sugestão para a TVI. Num acto de magnifica justiça social e sanidade pública, podia-se levar a coisa até ao fim e deixa-los lá eternamente presos, deitar a chave da quinta ao mar alto, rodear aquilo de arame farpado e minas e armadilhas, e explicar-lhes que afinal o filme era outro e que tinham ido ao engano para a Twilight Zone. Dava-lhes uns exemplares do Huis Clos de Sartre e dizia-lhe que afinal estavam era no Inferno. O Inferno “somos nós” ou seja, são eles.
Então é que o espectáculo devia valer a pena, daqui a um ano ou dois, quando os piolhos, as unhas gretadas, a sujidade, os cabelos colados, todos os restos de cosmética e dos liftings a desagregar-se, as borbulhas e a urticária instaladas, talvez sarna e outras doenças dos pobres a aparecerem, as hormonas aos saltos ou aos saltinhos, dependendo das personagens, o homem do Marco aos murros, e acima de tudo, ó Dante, a falta de esperança de alguma vez sairem de lá. Então, as faces visíveis das “celebridades” seriam iguais ao que elas são por dentro, e o espectáculo começava verdadeiramente. A pocilga passava então de ser um nojo para uma necessidade, as batatas a terem que ser rateadas, e as cenas do Zé Maria com as galinhas a parecerem uma amável diversão campestre face ao parto das vacas e à limpeza das latrinas.
A TVI que pense nisso, mas que não se esqueça de impedir o dr. Portas de ir lá com os tanques buscar a “supertia”. O ministro foi publicamente a um bar desejar felicidades à “supertia” antes da ida para a quinta, num gesto de subtil bom gosto. Ah! Meu bom Macário Correia, como te deves sentir vingado!


 
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Há duas horas atrás, o Sol, por de cima da chuva, por de cima do cinza esmagador do céu, brilhava assim:


 
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Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego...

Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece...

Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente...


F. Pessoa in Poesias.


Não sei se é Bom-dia.

segunda-feira, 18 de outubro de 2004

 
E se não soubessemos o que é...



O Mars Global Surveyor iniciou mais uma missão de registo fotográfico da superfície de Marte, sete anos depois de ter começado a orbitar o planeta. Desta vez, no entanto, chegou esta fotografia surpreendente: o triho deixado pela Spirit na sua deambulação à superfície. O mesmo trilho que a Spirit fotografou lá em baixo. Se não soubessemos o que era...


sábado, 16 de outubro de 2004

 
A educação de Pedro



A consciência das operações do pensamento, que é a lógica desconhecida a que me referi, só raramente existe, mesmo nos cérebros priviligiados. O número das concepções, o poder de as prolongar, a abundância das descobertas são coisa distinta que se produz à margem do juízo que fazemos da nossa natureza. Esta opinião é contudo duma importância que facilmente percebemos. Uma flor, uma proposição, um ruído podem ser imaginados quase simultaneamente; podemos impor-lhes uma sequência à medida dos nossos desejos; qualquer pode também transformar-se, deformar-se, perder sucessivamente a sua fisionomia inicial ao sabor do espírito que o detém; mas o conhecimento deste poder é o único meio que lhe confere valor inteiro. Só assim permite a crítica dessas formações, a sua interpretação, a determinação rigorosa daquilo que elas contêm, sem que os estados delas venham a abarcar directamente os da realidade. Com esse conhecimento começa a análise de todas as fases intelectuais, de tudo quanto se possa chamar loucura, ídolo, descoberta - inicialmente matizes que se não distinguem uns dos outros. Eram variações equivalentes duma substância comum; eram comparáveis, flutuavam indefinidas e como que irresponsáveis, podendo por vezes nomear-se, todas dentro do mesmo sistema. A consciência dos pensamentos que possuímos, na medida em que se trata de pensamentos, consiste no reconhecimento dessa espécie de igualdade ou de homogeneidade; no sentimento de que todas as combinações dessa espécie são legítimas, naturais, e de que o método consiste em excitá-las, em observá-las com rigor, em procurar o que elas implicam.
A dada altura dessa observação ou dessa dupla vida mental, que obriga o pensamento ordinário a ser apenas o sonho dum sonhador acordado, nota-se que a sequência desse sonho, a nuvem de combinações, contrastes, percepções, a qual se agrupa em torno da pesquisa ou que então desliza indeterminada e caprichosamente, se desenvolve com uma regularidade perceptível, uma evidente continuidade de máquina. Surge então a ideia (ou o desejo) de precipitar o curso dessa sequência, de levar os termos até ao limite, ao limite das expressões imagináveis, após o qual tudo será diferente. E se esta forma de consciência se tornar habitual, conseguir-se-à, por exemplo, examinar simultaneamente todos os resultados possíveis dum acto encarado, todas as relações dum objecto concebido, para se atingir em seguida o momento em que nos libertamos dele, a faculdade de pressentir sempre uma coisa mais intensa ou mais exacta do que a coisa dada, o poder de acordar em determinado momento dum pensamento que já durava de mais. Seja qual for a sua natureza, um pensamento que se fixa assume as características da hipnose e torna-se, em linguagem lógica, num ídolo.

Paul Valéry
in «Introdução ao Método de Leonardo da Vinci».

sexta-feira, 15 de outubro de 2004

 


Há pouco, o sol que hoje não vi, era assim.

 
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Este sol de Outono prega partidas...
Trespassou, tímidamente, as cortinas e iluminou com um arrogante feixe os livros empilhados em cima da minha secretária. Há momentos em que a realidade se afirma absolutamente. Ou como diria Pessoa, «as espadas!».


 
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A educação de Pedro



Se, por um daqueles artifícios cómodos, pelos quais simplificamos a realidade com o fito de a compreender, quisermos resumir num sindroma o mal superior português, diremos que esse mal consiste no provincianismo. O facto é triste, mas não nos é peculiar. De igual doença enfermam muitos outros países, que se consideram civilizantes com orgulho e erro.
O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela - em segui-la pois miméticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz.
O sindroma provinciano compreende, pelo menos, três sintomas flagrantes: o entusiasmo e admiração pelos grandes meios e pelas grandes cidades; o entusiasmo e admiração pelo progresso e pela modernidade; e, na esfera mental superior, a incapacidade de ironia.
(...) É na incapacidade de ironia que reside o traço mais fundo do provincianismo mental. Por ironia entende-se, não o dizer piadas, como se crê nos cafés e nas redacções, mas o dizer uma coisa para dizer o contrário. A essência da ironia consiste em não se poder descobrir o segundo sentido do texto por nenhuma palavra dele, deduzindo-se porém esse segundo sentido do facto de ser impossível dever o texto dizer aquilo que diz.
(...) Para o provincianismo há só uma terapêutica: é o saber que ele existe. O provincianismo vive da inconsciência; de nos supormos civilizados quando o não somos, de nos supormos civilizados precisamente pelas qualidades por que o não somos. O princípio da cura está na consciência da doença, o da verdade no conhecimento do erro. Quando um doido sabe que está doido, já não está doido. Estamos perto de acordar, disse Novalis, quando sonhamos que sonhamos.

Fernando Pessoa
in «Páginas de Doutrina Estética», O Provincianismo Português.


quinta-feira, 14 de outubro de 2004

 
A educação de Pedro



O facto de podermos prever um ruído sem sabermos o que ele significa é apenas porque as condições microestruturais necessárias e suficientes para a produção de um ruído raramente serão equiparadas por uma equivalência material entre uma declaração na linguagem utilizada para descrever a microestrutura e a declaração expressa pelo ruído. Isto não porque algo seja em princípio imprevisível, muito menos por causa de uma divisória ontológica entre natureza e espírito, mas simplesmente devido à diferença entre uma linguagem apropriada para lidar com os nossos neurónios e uma apropriada para lidar com as pessoas.
Podemos saber como responder a uma observação críptica de um jogo de linguagem diferente, sem que saibamos qual é a frase do nosso jogo de linguagem ordinário que, materialmente, equivale a essa observação. Produzir a comensurabilidade encontrando equivalências materais entre frases extraídas de diferentes jogos de linguagem é apenas uma técnica entre outras para fazer frente aos nossos pares humanos. Quando ela não resulta, voltamo-nos para qualquer coisa que resulte - por exemplo, compreender um novo jogo de linguagem e possivelmente esquecer o antigo.

R. Rorty
in «A Filosofia e o Espelho da Natureza», Capítulo 7, Da Epistemologia à Hermenêutica.

terça-feira, 12 de outubro de 2004

 
A educação de Pedro



Se alguém disse: Todos os corpos cheiram bem ou não cheiram bem, verifica-se ainda uma terceira possibilidade, que é a de nenhum deles cheirar a nada (não ter cheiro) e então ambas as proposições contrárias podem ser falsas; se eu disse que todos os corpos são odoríferos ou não são odoríferos, os dois juízos são contraditórios entre si e só o primeiro é falso, mas o seu oposto contraditório, ou seja, alguns corpos não são odoríferos inclui os corpos que não cheiram absolutamente nada; na oposição precedente (per disparata) a condição contingente do conceito de corpo (o cheiro) subsistia apesar do juízo contrário e não era, por conseguinte, suprimida neste; eis porque o último não era o oposto contraditório do primeiro.

Immanuel Kant
in Crítica da Razão Pura, Livro Segundo: Dos raciocínios dialécticos da razão pura, Capítulo II, Sétima Secção, A 503.

 
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A educação de Pedro




Os pensamentos dos homens são muito concordantes com as suas inclinações; as suas palavras e os seus discursos concordam com as suas opiniões infusas ou apreendidas; mas as suas acções resultam daquilo a que estão acostumados. Eis porque, como Maquiavel muito bem notou (ainda que num exemplo mal inspirado), ninguém deve confiar na força da natureza, nem na jactância das palavras, se não estiverem corroboradas pelo hábito. O exemplo que ele apresenta é que, na execução de uma conspiração ousada, ninguém se deve fiar na ferocidade aparente ou nas promessas resolutas de qualquer pessoa, e que o empreendimento deve ser confiado a quem tiver já alguma vez manchado as suas mãos com sangue.
(...) A predominância do costume é por toda a parte visível; de tal maneira que ficaríamos admirados de ouvir os homens declarar, protestar, prometer, fazer solenes juramentos, e depois vê-los proceder como tinham feito antes: como se fossem imagens mortas ou engenhos movidos apenas pelas rodas do costume. Vemos também o que é o reino ou a tirania do costume.(...) Já que o costume é o principal magistrado da vida humana, deve o homem por todos os meios prover à obtenção de bons costumes. Certamente, o costume fica mais perfeito quando começa na juventude: a isso se dá o nome de educação, que não é mais, com efeito, do que um costume precoce. Assim vemos que em relação aos idiomas, é na juventude, e não mais tarde, que a língua se presta a reproduzir todos os sons, todas as expressões, todas as moções, todas as articulações indispensáveis para a boa pronúncia; porque é verdade que os aprendizes tardios não conseguem adquirir tal subtileza, com excepção de alguns espíritos que não se deixaram solidificar, mas que zelaram por ficar sempre abertos e preparados para receber continuado aperfeiçoamento, o que é extremamente raro. Mas se a força do costume, quando simples e reparada, já é grande, essa mesma força, quando copulada, conjugada, e colectiva, será ainda muito maior. Aqui o exemplo ensina, a companhia conforta, a emulação estimula, a glória eleva, de maneira que, em tais casos, a força do hábito está na sua exaltação.A grande multiplicação das virtudes da natureza humana depende, certamente, das sociedades bem ordenadas e disciplinadas. Porque os Estados e os bons Governos podem alimentar as virtudes que estão a crescer, não podem melhorar as sementes. Tristeza é que os meios mais efectivos são hoje aplicados aos fins menos desejáveis.

Francis Bacon, in 'Ensaios - Do Hábito e da Educação'
Publicado em O Citador a 9 de Outubro.


 
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Karel Appel

On the road




Inaugura amanhã no Palais des Beaux-Arts de Bruxelas.


domingo, 10 de outubro de 2004

 
Cartas de Paris (14)

Alechinsky - cinquenta anos de desenhos (10)

Pierre Alechinsky, Hoirie-Voirie, 1968.


Sengaï

À la pointe du pinceau. Il m'arrive - je vis pour ces moments-là - d'inventer un trait. Douceur, partage; reconnaître un trait! Depuis des heures, à ma table, dans mon taillis, des heures sous l'effet d'une accumulation. Mes yeux clignent, repèrent, découvrent, prévoient, défendent, s'étonnent, acquiescent, refusent, perdent à nouveau, reprennent, accordent en direction de la main et du pinceau qui vont à l'encrier l'hiatus... reprennent le fil, clignent, repèrent, découvrent...
Comme en drogue. Du moins j'imagine qu'elle offre cet éclatement dans le mille. Sans rien, des heures. Puis déclenchement. Pas le sentiment trompeur du déjà-vu: se retrouver avec une dose du passé (de qui?) dans une situation large, épandue dans un lieu présent (à soi?) et qui d'en face, bientôt de tous côtés se jette sur vous... Déclenchement. Mon dernier trait d'encre répond à celui de mes prédécesseurs.
Nos traits communiquent. à la poite de pinceau. Certitude fugace, délicieuse alors, d'agir avec obéissance, guidé par plus que soi, par moins que la volonté, grâce précisément à la faculté de disparaître dans un système propre.
Je suis Sengaï. Pas de doute. Absurde de proclamer le mieux comprendre. Comprendre, il ne me resterait que les os. Je suis eux: pas que Sengaï, je veux dire. Pas que moi. Similitude. Sentiment très fort. Spasmodie.

Pierre Alechinsky, Hoirie-Voirie, 1968.


Croyance, mais impossible sans les dérisoires petits mouvements que ma main là-bas contrôle, que mes yeux rencontrent d'emblée sur le papier. Je ne désire rien d'autre mais ne puis, le doux et partagé instant, le provoquer à mon gré. Játtends, c'est tout. Avec certitude. Je sais, j'ai cette chance. Sengaï n'est pas complètement crevé. Possibilité de rendre fragment de vie à ce qui fut.

Encore serai. Si l'on me voit bien. Si l'on m'oublie. Si quelque autre vient s'asseoir des heures à ma manière. Dans le taillis. Si cet autre laisse à son tour, avec la fraîcheur, venir à grands traits vers lui (vers qui?) le déchaîné fantôme des limites.

Pierre Alechinsky
in «Pierre Alechinsky, suite acrylique», 1968
.

sexta-feira, 8 de outubro de 2004

 
Através dos olhos de Keppler



Há 400 anos, Keppler viu o aparecimento de uma nova estrela no céu. Corria o ano de 1604. O dia: 9 de Outubro. Fará amanhã exactamente 400 anos.
Na realidade o que Keppler viu, sem o auxílio de telescópios – que apenas seriam inventados quatro anos depois – foi a explosão de uma supernova. Esta ficou na história como a supernova de Keppler e foi o último acontecimento desta natureza ocorrido na Via Láctea.
Os observatórios revelam-no agora, 400 anos depois. A nova estrela vista por Keppler é hoje esta imensa “bolha” de gáz e poeira cósmica com cerca de 14 anos-luz de diâmetro e que continua a expandir-se a cerca de 6 milhões de kilómetros por hora.



quinta-feira, 7 de outubro de 2004

 
Cartas de Paris (13)

Alechinsky – Cinquenta anos de desenhos (9)

Pierre Alechinsky, Table de travail, 1963.

Encrier de voyage
Monter à bord d'un pinceau caboteur et reconnaître la silhouette amie, indélébile, laissée par le sillage d'encre de Chine sur le bleu, lithographié, de la carte de navigation.
Les dessins venus plus tard dans le blanc des marges de la carte, parfois longtemps plus tard, semblent sans connexion avec la carte même. Ou si peu. Comme paraissent peu représentatifs du voyage le ticket poinçonné retrouvé au fond d'une poche avec une carte postale où nous nous sommes promenés (mais la rue fut prise sous un autre angle, un autre ciel et sans doute à une autre époque), des timbres «pour l'étranger», une note défroissée de restaurant et ses écritures de bord de table, deux ou trois adresses de personnes rencontrées qu'on ne reverra plus et à qui jamais on ´n'écrira.
La couleur est donnée, verticale, qui passe par les jours et entrebâillements du dessin noir. Elle s'était d'abord présentée en vue aérienne avec des bruns et des gris (les montagnes, les ombres), des à-plats verts (telles régions boisées ou herbeuses), des bleus déjà d'yeux profonds (deux lacs côte à côte) ou en dégradé (les bords de mer) ou plus claire encore et finalement blanchâtre ou blanche (les déserts d'eau ou de glace ou de sable), etc.

Pierre Alechinsky
in: Michel Butor, Michel Sicard, Alechinsky, frontières et bordures, encres et peintures, 1981-1984, Paris, 1984.


Pierre Alechinsky, Central Park, 1965.


terça-feira, 5 de outubro de 2004

 

Cartas de Paris (12)

Alechinsky... mais, brevemente (8)


Pierre Alechinsky, Du soc à la proue, 2004.


domingo, 3 de outubro de 2004

 
Nuvens



A Opportunity fotografa nuvens nos céus de Marte.
Tudo tão próximo... também estas nuvens se parecem com coisas. A generosidade do Universo é fazer-nos sentir em casa.


sexta-feira, 1 de outubro de 2004

 
Correio da Cassini


Looking something like the fibrous bow of a violin, Saturn's colorful rings sweep through this spectacular natural color view while two small moons look on.

From left, the moons visible here are Janus (181 kilometers, or 112 miles across) and Mimas (398 kilometers, or 247 miles across). Cassini's view in this image is from beneath the ring plane; the moons are on the far side of Saturn. Janus leads Mimas as the two moons orbit the planet.


 
Cartas de Paris (11)

Alechinsky – Cinquenta anos de desenhos (7)

Pierre Alechinsky, Bouclier urbain, 1986.

Chiffonner le papier? une façon de se désinquiéter devant la fameuse surface blanche, la lumière frisante accentuant des reliefs suggère qu'il s'est déjà passé quelque chose.
Déjà, on lit des formes, on voit: on n'est pas devant le vide du blanc. Chiffonné, le papier semble moins imposant, proche de la boule qu'on en fera la courbeille en cas d'échec. Selon la pression de la main «en rase-mottes», le trait reste vivant, à l'arraché, sensible, lisible: si j'appuie plus fort, ou lentement, j'obtiens le noir, une ligne continue. Le registre s'étend. Nul besoin de chercher une autre matière ou texture pour exprimer: gris; il viendra par effleurement. Manière de tracer dans un rythme à peu près synchrone, sinon avec la pensée, du moins avec les mouvements de la main qui accompagnent cette pensée.

Pierre Alechinsky
in: Michel Butor, Michel Sicard, Alechinsky, frontières et bordures, encres et peintures, 1981-1984, Paris.

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