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quinta-feira, 30 de setembro de 2004

 
Cartas de Paris (10)

Alechinsky... mais, brevemente (6)






Pierre Alechinsky, La Poche de Dunkerque, 1990



quarta-feira, 29 de setembro de 2004

 
Ainda sobre a colocação de professores...

Texto retirado do forum do jornal Expresso:

"Trata-se da Compta, cujo presidente é o meu amigo Vitor Magalhães, pelo que sei o que se passa.Em primeiro lugar o Vitor é padrinho do filho mais velho do Bagão Felix. Em segundo lugar, o anterior ministro encomendou o programa e testou-o, tendo verificado que funcionava muito bem. Em terceiro lugar, a nova ministra resolveu mudar a matriz inicial 3 dias antes do arranque do concurso, sabem o que ela quis alterar? Criou um código especial, que desde o momento que fosse anexado a um professor, automáticamente ser-lhe-ia atribuida a escola da 1ª preferência. Um espécie de cunha informática, percebem? Só que a alteração à última hora deu cabo do algoritmo central e bye,bye programa. Os comentadores deste forúm apelaram para que eu dissesse algo mais acerca da negociata Compta/PSDPP, mas pouco mais se pode acrescentar, excepto:
Verifiquem as colocações da Escola EB 2+3 da Murtosa.-
Verifiquem as colocações da Escola Secundária Rodrigues de Freitas no Porto.
Verifiquem as colocações na escola Renato Amorim em Setubal.
Ou então, verifiquem os pagamento no valor de 325.652,00 à Compta em Maio de 2004, mais um pagamento de 658.321,00 em Julho de 2004, e mais aberrante ainda, o pagamento da última tranche do contrato de desenvolvimento de 987.325,00 no dia 20 (VINTE) de Setembro de 2004.
Mais informo que o contrato de assitência no valor de 250.000,00 euros anuais tem a duração de 15 anos.Para terminar, informo V. Exªs que o David Justino tem uma participação de 30 por cento na Compta através da holding 'International financial investiments PLC' com sede nas ilhas Cayman."


 
A hipocrisia não tem limites

Notícia no Jornal da Noite da RTP1: "Duvida-se que o governo italiano não tenha pago uma fortuna pela libertação destas duas jovens italianas..."



E se pagou? Qual é o problema? Qual é o preço destas vidas?
Se calhar não tanto quanto os ordenados dos profissionais da bola que apenas estimulam o discurso masturbatório de centenas de esquizofrénicos que deveriam estar devidamente identificados e medicados.
A hipocrisia não tem limites...

 
Quase juízo final

O meu errante não fazer nada vive e espalha-se pela variedade da noite.
A noite é uma longa festa solitária.
No meu secreto coração louvo-me e justifico-me:
Testemunhei o mundo; confessei a estranheza do mundo.
Cantei o eterno: a clara lua que regressa e as maçãs do rosto que o amor prefere.
Comemorei com versos a cidade que me cinge
e os arrabaldes que me desterram.
Eu disse assombro onde outros dizem apenas costume.
Perante a canção dos tíbios, acendi a minha voz em poentes.
Os antepassados do meu sangue e os antepassados dos meus sonhos
exaltei e cantei.
Já fui e sou.
Travei em firmes palavras o meu sentimento, que poderia dissipar-se em ternura.
A lembrança de uma antiga maldade volta ao meu coração.
Como um cavalo morto que a maré lança à praia, volta ao meu coração.
Ainda estão ao meu lado, no entanto, as ruas e a lua.
A água continua a ser doce na minha boca e as estrofes não me negam a sua graça.
Sinto o pavor da beleza; quem se atreverá a condenar-me se esta grande
lua de solidão me perdoa?

J.L.Borges, in Lua defronte, 1925.

segunda-feira, 27 de setembro de 2004

 
Despedida

Hão-de erguer-se entre o meu amor e eu
trezentas noites quais trezentos muros
e o mar será magia entre nós dois.

Apenas haverá recordações,
Oh tardes merecidas pela pena,
noites esperançadas ao olhar-te,
campos do meu caminho, firmamento
que vejo e vou perdendo...
Definitiva como um mármore,
a tua ausência irá entristecer as tardes.

J.L.Borges, in Fervor de Buenos Aires, 1923.

domingo, 26 de setembro de 2004

 
«De todas as felicidades que lentamente me abandonam, o sono é uma das mais preciosas e também das mais comuns. Um homem que dorme pouco e mal, encostado a numerosas almofadas, tem tempo de sobejo para meditar sobre esta particular voluptuosidade. Concordo que o sono mais perfeito está quase forçosamente ligado ao amor: repouso meditado, reflectido em dois corpos. Mas o que me interessa aqui é o mistério específico do sono, saboreado por si mesmo, o inevitável mergulho a que se aventura todas as noites o homem nu, sozinho e desarmado, num oceano onde tudo muda, as cores, as densidades, o próprio ritmo da respiração, e onde encontramos os mortos. O que nos tranquiliza no sono é que se sai dele, e que se sai sem qualquer mudança, pois que uma extravagante interdição nos impede de trazer connosco o resíduo exacto dos nossos sonhos. O que nos tranquiliza também é que ele cura a fadiga, mas cura-nos, temporariamente, pelo mais radical dos processos, arranjando as coisas de maneira que deixamos de existir. Nisso, como noutras coisas, o prazer e a arte consistem em nos abandonarmos conscientemente a esta bem-aventurada inconsciência, consentirmos em ser subtilmente mais fracos, mais pesados, mais leves e mais confusos que nós mesmos.»


Marguerite Yourcenar, in Memórias de Adriano, 1974.


 
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De tudo o que disse de mim que resta
Conservei falsos tesouros em armários vazios
Um navio inútil liga a minha infância ao meu fastio
Os meus jogos ao cansaço
Uma partida às minhas quimeras
A tempestade ao arco das noites em que estou só
Uma ilha sem animais aos animais que amo
Uma mulher abandonada à mulher sempre nova
Em veia de beleza
A única mulher real
Aqui e em qualquer parte
A oferecer sonhos aos ausentes
Sua mão estendida para mim
Reflecte-se na minha
Digo bom-dia sorrindo
Não se pensa na ignorância
E a ignorância reina
Sim eu tudo esperei
E desesperei de tudo

Paul Éluard, in La rose publique, 1934.

sábado, 25 de setembro de 2004

 
Cócó, reineta e facada...

Agora sim!...Portas, Lopes e Sócrates... tudo bons rapazes. Wellcome to Portugal.


Roy Lichtenstein, Half Face with Collar. 1963

 
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• PROFESSORES Governo cria comissão de inquérito


Roy Lichtenstein, Look Mickey. 1961

ou...
"Good girls loosen a few buttons when it's hot.
Bad girls make it hot by loosening a few buttons."


 
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Dar um salto a Madrid...

Ohhh...Alright.., 1964

neste fim de semana, que é o último para se poder ver a exposição de Lichtenstein no Centro de Arte Reina Sofia (encerra na 2ª feira). À falta de disponibilidade para ir, pode-se ficar com uma ideia do que se perdeu aqui.


 
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Cartas de Paris (9)

Alechinsky – Cinquenta anos de desenhos (5)



Pierre Alechinsky, Le bleu d'abondance, 2002.

Ils étendent la blancheur d'une feuille de papier de riz sur une calligraphie ou un dessin gravés dans la pierre et, à l'encre noire, obtiennent par frottage au moyen d'une brosse dure un décalque en négatif. Surgissent poèmes, chevaux, nuages, comme saisis à la lumière matinale. Ainsi font les Chinois.

Un premier estampage m'est venu sous la brosse quand j'ai voulu garder le souvenir d'un banc de la fin du siècle dernier, fait de huit cercles concentriques, un «tour d'arbre» en ferraille qui traînait dans la cour d'une maison amie. Sur deux papiers de Taiwan assemblés côte à côte, deux pour couvrir l'objet (un mètre cinquante de diamètre), ce fut facile comme bonjour. Progressivement, au rythme du va-et-vient latéral de ma brosse imbibée, les huit cercles sablés par le temps réapparurent, captés dans leur texture, avec d'insoupçonnables détails et aspérités.
Ce «tour d'arbre», point de départ pour mettre la souplesse d'un pinceau en situation de rêverie, entre depuis 1983 dans plusieurs de mes peintures. Selon mes ajouts au centre et aux alentours de son estampage, il parlera d'astre, d'octave, de mandala...

Pierre Alechinsky, Remarques marginales, dits et inédits, Gallimard, Paris, 1997.


Pierre Alechinsky, Fossile de l'instant, 1999.

sexta-feira, 24 de setembro de 2004

 
Cartas de Paris (8)

Alechinsky – Cinquenta anos de desenhos (4)




Pierre Alechinsky, Racines, 1952.

Le Bureau du titre

Les images parlent d'elles-mêmes. On le dit. Je préfère leur donner un titre. Par dérision respectueuse. Pour les débusquer, les accueillir avec des questions en sourdine, tourner autour en me disant je les comprends, je ne les comprends pas tout à fait, je ne les comprends plus du tout.
Par jeu. Titrer, c'est écrire un peu.
Sur ma table, quelques dessins nouveaux. Je m'en voudrais de les abandonner ainsi, sans identité. Je chercherai les mots. Une phrase d'encadrement pour un, un passe-partout verbal pour l'autre, etc.
Bien, et alors? La plupart des titres passent inaperçus. Titres inscrits au dos des tableaux. Titres noyés dans un «outil de travail» avec les mesures en centimètres, en inches, hauteur par largeur, le support, le médium, l'année, le lieu d'exécution, les expositions successives et autres renseignements à n'en plus finir, en trois exemplaires, vous gardez la feuille rose. Parmi mes notes et brouillons, je retrouve quantité de vieux titres éparpillés ou groupés par colonnes et petits paquets. Certes, ils ont désigné mes images (je relève des variantes, des fréquences, des rejets), mais maintenant, ils vont leur train.

Pierre Alechinsky
, Le Bureau du titre, 1983.


Pierre Alechinsky, Plumes et pétales, 1995.


 
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Cartas de Paris (7)

Alechinsky – Cinquenta anos de desenhos (3)

Pierre Alechinsky, Facture honorée, 1974.


Notes sur une morsure

Départ
Quelques vieilles lignes. Une vague. Un crâne. Un deuxième. Un ailleurs. Le personnage et son double.
Modèle Brassée de pelures d'orange épluchées par mon ami Reinhoud, conservées desséchées ou moisies sur la table, près de l'encre et du papier. Le soir en dessiner une comme si nous disposions d'une jeune fille muette, mort peut-être d'élègance mais disponible aux vivants regards.
La reconnaître entre toutes à ses formes dociles aux caprices de l'hygrométrie. Lui donner nom.
Évocations Par le violet: souvenirs d'école. L'encrier à ras des pupitres, odorant, crasseux.
Par le bleu: petits bouts de distance. Le creux de l'eau. Le pâle. Le diurne.
Par le vert: dans le mouvement, le haut de la vague. Les franges.
Par le rouge: une vigueur. Un sceau qui ne signifie rien qui ne soit plaisir.
Par le blanc: le lieu. L'absence. Défense de toucher. Passer outre.
Moyens Tête seule. Perdue. Spirale, serpent, méandre. On suit.
Avec maladresse, avec des crachotements. Les pleins et les déliés répandus, volontiers sans raison. Sans soutien? Prudences, rambardes.
Quitte à sauter, passer de l'autre côté des choses, par le travers.
Support Dix planches mordues à l'acide dans des réserves épargnées à la pointe et au pinceau.
Fin Personnage sur la montagne. Jamais vu. Peu convaincant, le personnage seul, parce que jamais vraiment vu. Mais une réplique engage l'image en pays de connaissance, force l'enchaînement.
Maintenant je vois. Reconnaissable comme l'est une tête de mort sur le socle du vainqueur, comme une boule de terre...comme quelques vieilles lignes le sont.

Pierre Alechinsky
, Les Sentiers de la création, Genève, 1971.

Pierre Alechinsky, Krach, 1976.

quinta-feira, 23 de setembro de 2004

 
Cartas de Paris (6)

Alechinsky – Cinquenta anos de desenhos (2)



Nota biográfica (para quem ainda não conheça)

Pierre Alechinsky nasceu em Bruxelas em 1927. Frequenta o curso de Arquitectura e de Artes Decorativas de La Cambre, em 1944. No ano seguinte descobre a obra de Michaux e Dubuffet. Em 1949 conhece o poeta Christian Dotremont que tinha fundado com Karel Appel e Asger Jorn o movimento Cobra. Participa na primeira grande exposição do grupo Cobra no museu Stedjelijk em Amsterdão. A partir de 1951, com a dissolução do grupo, instala-se em Paris onde estuda Gravura com o gravador Stanley Hayter. No ano seguinte estabelece relações de amizade com Giacometti, Bram van Velde e Brauner. Começa a corresponder-se com o pintor caligráfico japonês Shiryu Morita. Em 1954, conhece o pintor chinês Wallasse Ting que terá uma influência importante no desenvolvimento da sua obra. Data de 1954 a sua primeira exposição individual na galeria Nina Dausset, em Paris. Em 1955 desloca-se ao Japão onde realiza um filme sobre a caligrafia japonesa. A partir de 1962 começa a expôr regularmente na galeria Lefebre de Nova York. Em 1963, instala o seu atelier em Bougival, nos arredores de Paris. Publica, em 1966, Idéotraces, um dos seus primeiros textos sobre pintura, escrito em 1953. Em 1967, instala um atelier de Gravura em Bougival. Em 1969, desenha no atelier de André Breton. Primeira retrospectiva no Palácio de Belas Artes de Bruxelas. Em 1976, recebe o Prémio Andrew Mellon pelo conjunto da sua obra. Exposição de desenhos no Centro Pompidou, em 1978. Começa a trabalhar com a galeria Maeght, em Paris. Em 1987, é realizada a grande retrospectiva da sua obra no Museu Guggenheim de Nova York. Em 1999, inaugura a exposição «Alechinsky» na Galeria do Jeu de Paume, em Paris, exposição que será itinerante por várias cidades do mundo. Em 2004, a grande retrospectiva de desenhos dos últimos cinquenta anos, no Centro Pompidou.

 
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Lugar sem comportamento é o coração.
Ando em vias de ser compartilhado.
Ajeito as nuvens no olho.
A luz das horas me desproporciona.
Sou qualquer coisa judiada de ventos.
Meu fanal é um poente com andorinhas.
Desnvolvo meu ser até encostar na pedra.
Repousa uma garoa sobre a noite.
Aceito no meu fado o escurecer.
No fim da treva uma coruja entrava.

Manoel de Barros, Livro das Ignorãças, Parte II, Os deslimites da palavra, Segundo Dia, 2.2, 1993.

terça-feira, 21 de setembro de 2004

 
Marte aqui, (demora um pouco a fazer o download da imagem; clique para aumentar para a dimensão do ecrã; com os elevadores vertical e horizontal, percorre-se quase 360 graus)

Novos exploradores. A Spirit surge-nos aqui coberta por uma fina camada de pó vermelho: a terra de Marte (haveria aqui que inventar novas linguagens...)... este deserto poderia ser cá, lá, afinal as paisagens são-nos familiares como se o sentido da palavra uni-verso (várias coisas que concorrem para ser uma) se completasse inteiramente. A lógica do nosso olhar é também a mesma: há pedras que se parecem com coisas, coisas que se parecem com pedras. E as coisas que vemos nas pedras (ou as pedras que são coisas) são as mesmas coisas que vemos nas nossas pedras (ou as pedras são as mesmas coisas). Mas nestas nunca ninguém tocou, nunca ninguém as teve na mão e olhou devagar para elas, como diria Caeiro. Olhamo-las, através dos olhos da Spirit, mas somos também olhados por elas. Provávelmente, por enquanto, são elas que nos têm na mão e olham devagar para nós.
Há montanhas no horizonte que nos convidam para uma viagem.
O céu é verdadeiramente fantástico, verdadeiramente o invariável céu. Permanente, ocre, quente, como um infinito amanhecer.
Soubemos ontem que há vapor de água e metano nesta atmosfera. Há vida ali, algures (?). Será que nos olha como as pedras?

segunda-feira, 20 de setembro de 2004

 
Marte: Água = Vida


20 September 2004
ESA PR 51-2004. Recent analyses of ESA’s Mars Express data reveal that concentrations of water vapour and methane in the atmosphere of Mars significantly overlap. This result, from data obtained by the Planetary Fourier Spectrometer (PFS), gives a boost to understanding of geological and atmospheric processes on Mars, and provides important new hints to evaluate the hypothesis of present life on the Red Planet.


 
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Cartas de Paris (4)


Ainda Jongkind – As aguarelas


Jongkind, Barque avec marins dans un paysage brumeux.

Jongkind surge como um magnífico aguarelista, denotando nesta disciplina a influência dos movimentos emergentes da sua época.
Como fiz notar em Cartas de Paris (3), Jongkind nunca conseguiu distanciar-se o suficiente da sua austera (mas sólida) formação académica por forma a assumir, integralmente (e íntimamente) as ideias e conceitos novos da sua época. Muito embora se situe, pictóricamente, no limiar do impressionismo, fazendo a “ponte”, de forma subtil e elegante entre o realismo romântico e o impressionismo, Jongkind recusa íntimamente participar nas novas vanguardas do seu tempo. E aqui a palavra íntimamente tenta reflectir um pouco a própria personalidade do pintor, distante de teorizações e discreto na postura.
Mas, se por um lado, a pintura de Jongkind nunca se consegue subtraír inteiramente aos academismos do romantismo e do realismo – Jongkind foi sempre um pintor de atelier, a simples ideia de pintar ao ar livre perturbava-o, muito embora tenha mantido estreito contacto com os pintores de Barbizon -, por outro, a recolha sistemática de material pictórico era feita em pleno contacto com o real, fosse este campestre ou urbano. Não é assim, por acaso, que é justamente nas suas aguarelas que podemos sentir uma maior proximidade ao impressionismo.
Aliás, a amizade com o jovem Monet surge em 1862 quando um coleccionador inglês, conhecedor da obra dos dois homens, resolve organizar um jantar para que se conheçam. Esse jantar teve lugar em Honfleur, no jardim da pousada La Ferme St. Siméon. Claude Monet, dois anos após a morte de Jongkind, relata numa entrevista a Thiébault-Sisson, publicada no jornal Le Temps a 26 de Novembro de 1900: “Jamais repas ne fut si gai. En plein air, dans un jardinet de campagne, sous les arbres, en face d’une bonne cuisine rustique, son verre plein, entre deux admirateurs don’t la sincérité ne faisait pas de doute, Jongkind ne se sentait pas d’aise. L’imprévu de l’aventure l’amusait: il n’était pas habitué d’ailleurs à être recherché de la sorte. Sa peinture était trop nouvelle et d’une note bien trop artistique pour qu’on l’appréciât, en 1862, à son prix.”


Jongkind, Navires à voiles en pleine mer, 29 de Setembro de 1865.

Jongkind dominava mal o françês mas a descrição desse jantar não deixa dúvidas de um entendimento perfeito entre os dois pintores. Sabemos que Jongkind convidou Monet a pintar no seu atelier em Paris mas é este, no início da sua carreira, que consegue cativar Jongkind a pintar com ele ao ar livre. Muitas das aguarelas de Jongkind dessa época foram trabalhadas na companhia de Monet.
Ainda nessa entrevista ao Le Temps, Monet confessa: “C’est à lui que je dois l’éducation de mon oeil”.



Jongkind, Bateaux-lavoirs sur la Seine devant le pont Notre-Dame, 13 de Maio de 1869.


domingo, 19 de setembro de 2004

 
O poema é antes de tudo um inutensílio.
Hora de iniciar algum convém se vestir de roupa de trapo.
Há quem se jogue debaixo de carro nos primeiros instantes.

Faz bem uma janela aberta.
Uma veia aberta.

Pra mim é uma coisa que serve de nada o poema
Enquanto vida houver

Ninguém é pai de um poema sem morrer

Manoel de Barros

sexta-feira, 17 de setembro de 2004

 
Com 100 anos de escória uma lata aprende a rezar.
Com 100 anos de escombros um sapo vira árvore e cresce
por cima das pedras até dar leite.
Insetos levam mais de 100 anos para uma folha sê-los.
Uma pedra de arroio leva mais de 100 anos para ter murmúrios.
Em seixal de cor seca estrelas pousam despidas.
Mariposas que pousam em osso de porco preferem melhoras cores tortas.
Com menos de 3 meses mosquitos completam a sua
eternidade.
Um ente enfermo de árvore, com menos de 100 anos, perde
o contorno das folhas.
Aranha com olho de estame no lodo se despedra.
Quando chove nos braços da formiga o horizonte diminui.
Os cardos que vivem nos pedrouços têm a mesma sintaxe
que os escorpiões de areia.
A jia, quando chove, tinge de azul o seu coaxo.
Lagartos empernam as pedras de preferência no inverno.
O vôo do jaburu é mais encorpado do que o vôo das horas.
Besouro só entra em amavios se encontra a fêmea dele
vagando por escórias...
A 15 metros do arco-íris o sol é cheiroso.
Caracóis não aplicam saliva em vidros; mas, nos brejos,
se embutem até o latejo.
Nas brisas vem sempre um silêncio de garças.
Mais alto que o escuro é o rumor dos peixes.
Uma árvore bem gorjeada, com poucos segundos, passa a
fazer parte dos pássaros que a gorjeiam.
Quando a rã de cor palha está para ter - ela espicha os
olhinhos para Deus.
De cada 20 calangos, enlanguescidos por estrelas, 15 perdem
o rumo das grotas.
Todas estas informações têm uma soberba desimportância
científica - como andar de costas.

Manoel de Barros, O Guardador de Águas, XX.

 
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Correio da Cassini

Será esta uma das charneiras entre o belo e o sublime?




Saturn's faintly banded atmosphere is delicately colored and its threadbare rings cross their own shadows in this marvelous natural color view from Cassini.

The planet and its rings would nearly fill the space between Earth and the Moon. Yet, despite their great breadth, the rings are a few meters thick and in some places, very translucent. In this image, we can see through the C ring, which is closest to Saturn, and through the Cassini division, the 4,800-kilometer- (2,980-mile-) wide gap that arcs across the top of the image and separates the optically thick B ring from the A ring. The part of the atmosphere seen through the gap appears darker and more bluish due to scattering at blue wavelengths by the cloud-free upper atmosphere.

 
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A
Science publica no seu número de 15 de Setembro uma notável entrevista, sob o título The Candidates Speak, com George W. Bush e o Senador John Kerry, os dois candidatos à presidência dos Estados Unidos, sobre a estratégia norte-americana para a Ciência, nos próximos 5 anos. Para ler a entrevista na totalidade, há que fazer o download em PDF mas vale bem a pena.
Ficam aqui alguns excertos no que se refere à investigação espacial, energia e investigação genética:
Science: Can we afford to send astronauts back to the Moon and on to Mars? Should that be the cornerstone of U.S. space policy? If so, what parts of the current program should be scaled back or eliminated to make room for it?
KERRY: Today, thanks to decades of public investment in space exploration activities, a rotating international team of astronauts are living and working in space on the International Space Station, a dozen Americans have walked on the Moon, we have rovers exploring the surface of Mars, and an armada of spacecraft continue to explore our solar system. NASA is an invaluable asset to the American people and must receive adequate resources to continue its important mission of exploration. However, there is little to be gained from a space initiative that throws out lofty goals but fails to support those goals with realistic funding. I am committed to increasing funding for NASA and space exploration because it not only makes critical contributions to our economy but also because it expands our understanding of the world we live in.
BUSH: My administration firmly believes that the benefits of space technology are far reaching and affect the lives of every American. Space exploration has yielded advances in communications, weather forecasting, medicine, electronics, and countless other fields. For example, image processing technologies used in life-saving computed tomography (CAT) scanners and magnetic resonance imaging (MRI) trace their origins to technologies engineers use in space. In January of this year, we committed the United States to a long-term human and robotic program to explore the solar system, starting with a return to the Moon to ultimately enable future exploration of Mars and other destinations. It will be affordable and sustainable, while maintaining the highest levels of safety. Return missions to the Moon will give astronauts the opportunity to develop new technology and harness the Moon’s resources to allow manned exploration of more challenging environments. Furthermore, an extended human presence on the Moon could reduce the costs of further exploration, since lunar-based spacecraft could escape the Moon’s lower gravity using less energy at less cost than Earth-based vehicles. The program commits the nation to a fiscally responsible long-term program to explore space through the use of robotic missions and human exploration. This new vision is a measured one that will be executed on the basis of available resources, accumulated experience, and technology readiness.
(...)
Science: Worldwide energy demand is rising at the same time oil production is expected to peak soon and to begin declining. But burning more coal will greatly increase carbon emissions. How would your energy in research and development (R&D) priorities address these problems?
BUSH: I believe America’s energy future must include coal—the key challenge is developing technologies to make it burn cleaner. My Clear Skies legislation, which is the most aggressive presidential initiative in history to reduce power plant emissions, will create a $50 billion market for clean coal technologies. Through Clear Skies, we will cut sulfur dioxide, nitrogen oxides, and mercury by 70%, while maintaining America’s most domestically secure, affordable, and reliable energy source. Additionally, as a key part of my comprehensive national energy policy, I am investing more than $2 billion over 10 years in the clean coal technologies that will transform America’s energy economy, including support for FutureGen, an international, public-private initiative to build the world’s first coal-based power plant that can produce both electricity and hydrogen with virtually no emissions of air pollutants or greenhouse gases.
KERRY: Our energy plan will increase and enhance domestic energy sources and provide incentives to help Americans use energy more cleanly and efficiently while creating 500,000 new jobs. The United States can develop and deploy clean energy technologies that will make us more efficient and allow us to capitalize on domestic and renewable sources of energy. John Edwards and I believe that we need clear benchmarks by which to measure the emissions performance of existing and new uses of coal. Our administration will provide a flexible package of incentives to construct state-of-the-art advanced coal plants, including Integrated Gasification Combined Cycle (IGCC) coal-fueled power plants. In addition, we will invest in research and development into advanced fossil and renewable fuel technologies and fund research into advanced greenhouse gas mitigation and sequestration technologies.
(...)
Science: Should U.S. government–funded scientists have access to human embryonic stem cell lines generated after August 2001? Should they be able to create new lines?
KERRY: Yes. As president, I will lift the current ban on federal funding of research on stem cell lines created after August 2001. Right now, more than 100 million Americans suffer from illnesses that one day could be wiped away with stem-cell therapy, including cancer, Parkinson’s, diabetes, and other debilitating diseases. We must make funding for this research and other important scientific work a priority in our universities and our medical community—all while we ensure strict ethical oversight. And we must secure more funding for it at agencies like the National Institutes of Health and the National Science Foundation.
BUSH: My administration is the first to allow federal funding for human embryonic stem cell research. However, I put in place reasonable ethical requirements for scientists who want to use taxpayer dollars. I believe that scientific discovery and ethical principles can go hand in hand and that we should not use taxpayer money to encourage or endorse the additional destruction of living, human embryos.
I remain committed to fully exploring the promise and potential of stem cell research without violating ethical principles and while maintaining respect for all human life. And I have dramatically increased funding for all forms of stem cell research. In addition, NIH is creating a new National Embryonic Stem Cell Bank, which is important for consolidation, reducing costs, and maintaining uniform quality control over the cells.
Science: Should U.S. government–funded scientists be allowed to do somatic cell nuclear transfer (research cloning), creating early preimplantation human embryos for research purposes?
BUSH: I believe all human cloning is wrong, and a total ban on human cloning is necessary to ensure the protection of human life as the frontiers of science expand. Anything short of a comprehensive ban would be impossible to enforce and would permit human embryos to be created, developed, and destroyed solely for research purposes. I strongly support a comprehensive law against all human cloning.
KERRY: I’m proud to support bipartisan legislation by Senator Orrin Hatch that would make human cloning illegal. This bipartisan legislation includes support for somatic cell nuclear transfer, which would provide greater access to stem cells to conduct the important research we need. We all have loved ones who suffer from diseases that could be cured or ameliorated by this research, including cancer, Parkinson’s, diabetes, spinal cord injury, and Alzheimer’s. This is not a partisan issue. We should not put ideological shackles on the ability of America’s doctors to bring them those urgently needed cures.

quinta-feira, 16 de setembro de 2004

 
Sou um sujeito cheio de recantos.
Os desvãos me constam.
Tem hora leio avencas.
Tem hora, Proust.
Ouço aves e beethovens.
Gosto de Bola-Sete e Charles Chaplin.

O dia vai morrer aberto em mim.

Nasci para administrar o à-toa
o em vão
o inútil.
Pertenço de fazer imagens.
Opero por semelhanças.
Retiro semelhanças de pessoas com árvores
de pessoas com rãs
de pessoas com pedras
etc etc.
Retiro semelhanças de árvores comigo.
Não tenho habilidade pra clarezas.
Preciso de obter sabedoria vegetal.
(Sabedoria vegetal é receber com naturalidade uma rã
no talo.)
E quando esteja apropriado para pedra, terei também
sabedoria mineral.


Manoel de Barros, Livro sobre Nada, 1997.

 
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A seguir atentamente na Grande Loja.
“Seven" - Os 7 preconceitos letais na educação1ª Parte
A Grande Loja inicia hoje a publicação da primeira parte de um texto que nos foi feito chegar por David Justino. Na semana em que se inicia mais um ano lectivo, o ex-ministro da educação do executivo de Durão Barroso, regista, assim como partilha, o muito que ficou por fazer e acima de tudo o que é urgente fazer.

Portugal precisa de uma estratégia para o desenvolvimento educativo, assente numa visão de longo prazo que concretize metas e patamares de desempenho do sistema e a aferição contínua da sua evolução. Este é o desafio que qualquer responsável, político ou técnico, terá de interiorizar se quer ver bem sucedido o trabalho que dia a dia desenvolve.A tarefa não é tão fácil quanto poderá parecer o enunciado do parágrafo anterior. Em primeiro lugar porque o ciclo de mudança num sistema tão complexo continua a não coincidir com os imperativos do ciclo político. Em segundo lugar, porque a experiência tem revelado que a gestão do curto prazo tende a relegar para segundo plano a acção continuada, persistente e orientada por objectivos. Em terceiro lugar, porque não sendo possível partir da “estaca zero” é necessário enfrentar a cultura instalada, a resistência organizacional (quantas vezes passiva e travestida de “plena adesão”), o adquirido avesso a qualquer sentido crítico que entrava a mudança.A primeira dificuldade só pode ser superada desde que verificados dois pressupostos:
· Estabilidade governativa com perspectiva de renovação de mandato permitindo sustentar políticas de médio prazo.
· Entendimento alargado entre as forças partidárias com vocação governativa sobre as questões chave do desenvolvimento educativo a longo prazo.
O primeiro pressuposto, de âmbito exclusivamente político, começa a explicitar-se e a passar da intenção do Governo para as expectativas da opinião pública. O segundo pressuposto encontra na proposta de Lei de Bases da Educação uma oportunidade única para definir uma plataforma mínima de convergência sobre o que deve ser o futuro do sector.
A ideia de um pacto de regime que torne viáveis as reformas que o sector exige não pode ser concebido em abstracto e dificilmente conduzirá a qualquer paz social decorrente de um entendimento político prévio. Daí a ideia alternativa de uma plataforma de convergência mínima sobre os objectivos estratégicos de longo prazo que se pretendem para o sector. A proposta de Lei de Bases da Educação assume esse papel. Não se trata de um mero diploma enquadrador da realidade existente. É por si só o documento base que tem implícita uma visão estratégica da educação para as próximas duas décadas.
A segunda dificuldade resulta das condições da prática governativa. Pretender obter resultados de expressão considerável no curto prazo é uma ilusão que limita a sustentabilidade do processo de mudança. Esta ideia é extensiva à política orçamental, à gestão das escolas, ao combate ao desperdício e à qualificação das aprendizagens que permitam uma elevação dos desempenhos. Também neste domínio o primado da política é regra porque é a condição indispensável à compatibilização entre a gestão do dia a dia e a concretização sistemática dos objectivos estratégicos.
A terceira dificuldade é de maior monta e, ao mesmo tempo, mais subtil. Assenta num vasto conjunto de preconceitos sobre educação e política educativa que se encontram arreigados um pouco por todo o lado e que importa questionar e esclarecer. Vamos analisar alguns deles.
O primeiro preconceito identifica-se com a tendência para a desvalorização da gestão organizacional do sistema e dos seus componentes relativamente ao primado da qualificação pedagógica. A tese pode ter sentido face a sistemas bem organizados e racionalizados, não o tem face à situação do sistema educativo português. Não há ganhos de qualidade e de eficácia sem uma profunda racionalização da macro organização educativa. O nível de ineficiência e de desperdício é elevadíssimo, facto há muito comprovado.
O segundo preconceito decorre do anterior: para aumentar a qualidade da educação é necessário aumentar o investimento (entenda-se despesa pública!). O exemplo do sistema educativo português é paradigmático: com um dos mais elevados níveis de despesa pública, obtém dos piores desempenhos educativos, entre os seus parceiros e mais directos concorrentes no quadro comunitário. Também na educação a consolidação orçamental é condição incontornável da qualificação do sistema. O desafio, de certo modo provocatório, é o de demonstrar o contrário do que enuncia o senso comum: só eliminando o desperdício e contendo a despesa pública se consegue criar as condições para uma reforma da educação e um aumento dos indicadores de desempenho.
O terceiro preconceito tem assumido ao longo dos quase trinta anos do regime democrático um pendor marcadamente ideológico: a clara oposição entre escolas públicas e escolas privadas que tende a polarizar o debate público entre esquerda e direita. Este debate tem um efeito nocivo ao sistema: faz esquecer o debate entre boas e más escolas, escolas que progridem e escolas que regridem, escolas bem geridas e com bons projectos e escolas que se refugiam em estereótipos sociológicos (de preferência anti-economicistas) para justificar o injustificável. O debate recorrente sobre os “rankings” das escolas com ensino secundário – apesar de todas as limitações que eles possam apresentar – é revelador do enviesamento do debate sobre educação e da reacção ao confronto de resultados e à implementação de uma cultura de avaliação em função de um conjunto de termos de referência e indicadores.
Quarto preconceito: o aumento da qualidade das aprendizagens está dependente de uma diminuição da razão n.º de alunos / professor e da dimensão média das turmas. A literatura científica internacional não é suficientemente taxativa sobre esta tese. O espaço de convergência da maior parte da investigação já realizada aponta para a existência de ganhos de qualidade decrescentes à medida que as reduções se aproximam dos 25 alunos por turma e nulos abaixo daquele limiar, excepção feita para turmas de alunos problemáticos (necessidades educativas especiais e problemas comportamentais) em que dimensões entre os 15 e os 20 alunos se revelam mais recomendáveis. Esta demonstração estatística não se aplica a alguns dos países asiáticos – casos da Coreia, do Japão ou Singapura – que conseguem obter bons resultados em escolas cuja dimensão média ultrapassa os trinta alunos. Ou seja, mais importante que a dimensão das turmas é o tipo de ensino que é ministrado, o ambiente na sala de aula em que ressalta o papel da disciplina, o valor social da educação enquanto potenciador da mobilidade ascendente e o próprio sistema de valores que tende a orientar condutas, atitudes e comportamentos dos seus alunos.No caso português a evidência estatística não deixa grandes dúvidas. Não obstante o limite máximo da dimensão das turmas se situar nos 28 alunos, a moda varia, de acordo com os diferentes níveis de ensino, entre os 20 e os 22. Porém, é nas escolas com turmas de dimensão acima da média que se obtêm os melhores resultados, nomeadamente aquelas que se situam em regiões de maior dinamismo demográfico e com um índice de urbanização mais elevado. São as pequenas escolas, com poucos alunos, situadas nas regiões mais deprimidas e inseridas em meios rurais que apresentam as maiores taxas de insucesso escolar e, por conseguinte, menor esperança de escolarização à entrada do sistema educativo.
(continua...)
David Justino
A seguir na Grande Loja
O quinto preconceito : A qualificação das aprendizagens processa-se através dos incentivos às experiências pedagógicas e à divulgação das boas práticas. Este preconceito assenta na ideia de que a inovação pedagógica resultante dessas experiências conduzirá à mudança organizacional e à qualificação das aprendizagens, desde que se potencie os mecanismos de difusão da inovação. Existe, à partida, um clara confusão entre experiência e inovação. Acresce a esta confusão um erro que tende a transpor os mecanismos de difusão da inovação dos sistemas produtivos e das economias de mercado para os sistemas educativos.
Não é isso que acontece em Portugal, onde o sistema é maioritariamente público, não se rege pelas regras do mercado, não obedece a princípios de competitividade, nem se traduz na remuneração do agente inovador. Os mecanismos de inovação e de difusão neste tipo de sistemas são muito mais limitados e, quantas vezes, tendem a enquistar os processos de mudança, bloqueando-os no seu potencial desenvolvimento. A remuneração do agente inovador não existe, tal como não existe um sistema de avaliação que permita distinguir entre iniciativas com efeitos positivos sobre a qualificação das aprendizagens e outras.
Sexto preconceito: é necessário superar os métodos tradicionais de carácter directivo no sentido de promover a capacidade das crianças para desenvolver todo o seu potencial de “aprender a aprender”. A obsessão inovadora conduz, na maior parte dos casos, a desvalorizar e a questionar bens adquiridos ao longo de muitas décadas de experiência educativa. Esta atitude conduziu à generalização de condutas que se tornaram desestruturadoras dos sistemas de aprendizagem, nomeadamente nos primeiros anos de escolaridade: desvalorização do esforço sistemático, da memorização, da repetição e do treino, indispensáveis à aquisição de conhecimentos, bem como de princípios relativos à disciplina na sala de aula, ao rigor indispensável ao desenvolvimento de uma cultura científica, ao cumprimento de metas e objectivos gerais para não sacrificar a especificidade de cada aluno.
A crítica do modelo autoritário de escola – a que justamente não se deseja regressar – pôs em causa os próprios alicerces da instituição escolar, por natureza conservadora, mas nem por isso insensível à mudança que o desenvolvimento social exige. Foi-se longe demais.
Sétimo preconceito: O sucesso educativo está condicionado pelas condições sociais, funcionando o sistema como reprodutor das desigualdades. O desenvolvimento da sociologia da educação teve o mérito de estabelecer um conjunto de quadros teóricos que tendem a associar determinados fenómenos educativos a determinadas estruturas e dinâmicas sociais. O efeito perverso desse desenvolvimento teórico foi o resvalar para uma concepção determinista que faz associar a um determinado nível de desenvolvimento económico e social um incontornável nível de desenvolvimento educativo.
Ou seja, confunde-se um modelo explicativo da realidade com a própria realidade, uma associação estatística com uma relação causal. O erro é ainda maior quando esses modelos aplicáveis à escala macro são mecanicamente transpostos para a escala micro, das escolas, das famílias e dos alunos.
A análise comparada internacional de indicadores de desempenho e qualidade dos sistemas educativos desmente esse mesmo determinismo. O exemplo dos países asiáticos ou o dos países do leste europeu de adesão recente à União Europeia rompem com o determinismo social que tende a relacionar níveis de desenvolvimento económico com qualidade da educação. O mesmo se poderá dizer quando alguns matizam essa tese recuperando a hipótese weberiana da ética protestante para a aplicar ao desenvolvimento da educação. Também aí o exemplo irlandês deita por terra o determinismo social.
O fenómeno educativo não é susceptível de ser entendido fora dos contextos sociais e culturais em que se verificam e desenvolvem, mas a aceitação deste pressuposto não nos permite tomá-lo como uma condicionante insuperável e muito menos como um determinismo inquestionável.
A compreensão deste último preconceito passa muito mais pela resistência em se assumir erros graves nas políticas educativas durante os últimos trinta anos, do que tentarmos encontrar modelos sociológicos explicativos do atraso e da desorganização do nosso sistema educativo.
Os erros de avaliação resultantes da consagração do preconceito do determinismo social ganha especial expressão quando passamos para a escala micro. A tentativa de silenciar o debate público em torno do desempenho das escolas tem em grande parte a ver com esta concepção.
Os estudos desenvolvidos em torno das classificações dos exames do 12.º ano, escola a escola, permitem concluir que as boas escolas existem independentemente do estrato social dominante que as frequenta, da sua localização geográfica ou do estatuto (público ou privado) por que se regem. O mesmo poderemos dizer daquelas que estão no extremo oposto dessas classificações.
É precisamente porque existem muitas excepções à regra e muitos professores e agentes educativos que não aceitam o determinismo nem se orientam por este tipo de preconceitos, que é possível dizer que não estamos condenados ao atraso educativo.
David Justino

quarta-feira, 15 de setembro de 2004

 

William Kentridge, Drawing for Stereoscope, 1998-1999.

 
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Contingência, ironia, solidariedade (em falsete)

Depois de muito andarmos (eu e os meus poucos leitores) às voltas com Rorty e com essa complexa discussão sobre o esforço e a responsabilidade social (como foi defendido por Habermas, por exemplo), por um lado e, por outro, o estímulo fundamental do individualismo como motor de um desenvolvimento inventivo (em que se empenharam, por exemplo, Proust e Heidegger), verifico a total impossibilidade de rebatimento destas ideias para o contexto nacional, contexto que apenas permite o título em falsete. Com efeito, tudo se continua a passar dentro dessa área acromática, dos cinzas ligeiramente coloridos, em que, por um lado se tenta (em falsete) o empenhamento individual sob a protecção do mais insuportável paternalismo, gerado governamentalmente por uma classe a-culturada, sem a menor percepção ou intuição de um sentido histórico, qualquer que ele seja, e, muito menos, possuidora de qualquer estética ou ética do pensamento. Simples gestores de dinheiros e de conjuntos de ideias, arquivistas subalternos, artistas circenses medíocres num permanente malabarismo falhado, ora exigindo a desculpa da plateia, ora simulando que o desaire faz parte do espectáculo, era inevitável e até foi ensaiado. Tudo isto acalentado por um jornalismo de baixo nível em que a verdade significa apenas o lucro do lápis.
Do ponto de vista económico, todo este néon significa apenas a velha receita de culinária salazarista, ou como o Agostinho da Silva gostava de dizer, “não dar de almoço e obrigar a pagar para jantar”.


Simples e directo o texto do leitor José Cruz, publicado hoje por JPP no Abrupto: Veio-me um arrepio pela espinha de lembrar tão vividamente os tempos da sorridente tirania de Guterres e João Soares. Lembra-se seguramente melhor do que eu de como o único contraditório que passava na comunicação social era o debate sobre o Benfica e Vale de Azevedo. Tudo o resto era ignorado ou silenciado (na comunicação social dominada pela esquerda sempre há a distinção entre os que são parciais espontaneamente e os que o são com dolo). Estaremos muito melhor? Não me parece. Bagão Félix é tão querido e ouvido porque o que lhe aproveitam do discurso vem muito do baú da esquerda, tem muito do ingrediente da «justiça social». Eu, que não sou pobre nem riquíssimo,só lendo blogs descomprimo deste novo sufoco da «solidariedade» e desta ideia de Estado benfeitor e omnipresente. Recebo só 60% do que ganho para que o resto alimente funcionários indolentes, mal-criados, e que me tratam como um aborrecimento intolerável quando tenho que pagar, por exemplo, algumas centenas de contos de imposto imobiliário. E quando sou obrigado a financiar em geral um Estado que quer fazer por mim o que eu faria melhor e mais barato, que se mete em tudo, desde secretarias na Golegã, a educação sem nível, a ONG`s representativas de nada, a saúde risível, a experiências culturais sem esforço nem talento nem público.Em cada sucessivo discurso governativo é sempre isto: espero um vislumbre de preocupação sobre como deixar a população activa trabalhar, investir e poupar em paz e por sua iniciativa e risco privados; em vez disso repete-se a preocupação paternalista e bacoca de ir buscar ainda mais dinheiro, de ficalizar e tolher ainda mais, para tornar «a sociedade» que eles imaginam ainda mais justa, e «os portugueses» ainda mais felizes. Carvalhas dirá «os trabalhadores», Bagão dirá «as famílias», mas no fundo é o mesmo país que vêem: um conjunto de gente sem grande ambição ou futuro, que é preciso proteger com o dinheiro dos «capitalistas» (diria Carvalhas), dos «privilegiados» (diria Bagão), mas que cada vez mais se parecem com a classe média. Depois debatem-se muito com o défice.

Mas ainda culturalmente o panorama é mais fechado, o tecto mais baixo, a luz mais carrancuda, a raiar o cinza puro. Porque do que se trata, afinal, é de um problema de linguagem e de entendimento histórico. As ideias não deveriam oscilar entre a vontade de Deus e a natureza do homem mas, simplesmente pelo conhecimento de que a cultura e a estratégia cultural se operam na área do desejo, em que a linguagem, a consciência, a moralidade, as mais elevadas esperânças são produtos que se podem tornar literais, porque se pode tornar literal aquilo que foi uma produção metafórica acidental. Fazer cultura foi sempre isto.

segunda-feira, 13 de setembro de 2004

 
Cartas de Paris (3)
Jongkind
(ou a premonição da transgressão)

No Museu d’Orsay, a primeira grande retrospectiva de Johan Barthold Jongkind, 113 anos depois da sua morte.

Jongkind, Notre-Dame de Paris vue du quai de la Tournelle, 1864.

Jongkind situa-se, estéticamente, naquela faixa estreita e, por vezes, confusa entre o romantismo e as vanguardas da segunda metade do século XIX, nomeadamente o Impressionismo.
Nascido em 1819 em Lattrop, na Holanda, Jongkind começa por estudar, aos 18 anos, na Academia de Arte de Haia onde segue os cursos de desenho de Bart Van Hove, entrando para as aulas do pintor romântico Andreas Schelfhout (1787-1870). Jongkind vive num contexto artístico relativamente esvaziado nesta Holanda da primeira metade do século XIX. Regra geral, os artistas holandeses revisitam a história, remetendo-se a uma pintura de género e da representação da natureza. Depois de um século XVIII monótono e pouco inventivo, em que ganham notoriedade as telas de Isaak Ouwater (1750-1793), quase reposições das de Jan Van der Heyden (1637-1712), o período romântico concilia os artistas com a intimidade das paisagens e das emoções humanas.
É na Academia de Haia que Jongkind descobre as telas de Vermeer e de Backhuysen para cinco anos depois, com uma bolsa de estudos concedida pelo rei Guilherme I (que será renovada durante dez anos), partir para Paris onde é aceite como aluno de Eugène Isabey, pintor paisagista conceituado, chefe de fila dos pintores românticos franceses. Isabey vai influenciar Jongkind nas opções cromáticas, nomeadamente na utilização da cor pura.
Dois anos mais tarde, descobre a costa da Bretanha e conhece François Picot, antigo aluno de David, com quem prossegue a sua formação. Durante estes primeiros 40 anos da sua vida, Jongkind recebe uma formação académica que lhe proporciona um estatuto seguro, nomeadamente do ponto de vista comercial. Com efeitos, as suas paisagens são um convite para os marchands que especulam sobre uma produção fácilmente negociável. Pierre-Firmin Martin e Adolphe Beugniet, dois dos mais conceituados galeristas do segundo Império, acolhem incondicionalmente as obras de Jongkind e mesmo depois da sua morte, em 1891, Jongkind continua a ser a vedeta de vendas da maioria das galerias parisienses.

Jongkind, Le Pont Royal vu du quai d'Orsay et la machine à guinder, 1852.

Com a morte de sua mãe, em 1855, Jongkind regressa à Holanda, onde permanecerá durante 5 anos, debatendo-se com graves problemas financeiros fruto de imensas dívidas familiares. Só em 1860, a vida de Jongkind muda radicalmente. Com a ajuda de amigos como Corot, Isabey, Rousseau e Bonvin - que organizam uma venda das suas obras - , Jongkind consegue regressar a Paris. Data também desta época a sua ligação com a pintora Joséphine Fesser bem como o conhecimento de Eugène Boudin e do jovem Claude Monet.
Influenciado por novas ideias e posturas, Jongkind não esquece, no entanto, a sua formação académica. A sua pintura regista ténues mudanças de atitude. O mesmo já não se pode dizer das aguarelas e das gravuras, disciplinas em que Jongkind parece mais à vontade para a aplicação de novos conceitos gráficos e cromáticos. Em 1862, realiza um conjunto de águas-fortes que lhe assegura um lugar na Sociedade de Gravadores franceses e, principalmente, um elogioso texto de Baudelaire. Um ano depois participa com Fantin-Latour, Manet e Pissarro no Salão dos recusados.
Tendo-se tornado muito rápidamente o ídolo dos jovens pintores da época que encontram nas suas obras um convite à transgressão, Jongkind não tem, no entanto, alma de teórico e muito menos de chefe de escola. Recusa-se a participar na exposição dos impressionistas, organizada pelo marchand Paul Durand-Ruel, e toma uma atitude de grande discrição numa Paris efervescente de salões e mundanidades. Mantendo o seu atelier na rue de Chevreuse, número 9, em Montparnasse, Jongkind mostra-se, no entanto, afastado de todos os novos movimentos de vanguarda parisienses.

Jongkind, Clair de lune à Overschie, Rotterdam, 1855.

Embora se mantenha ligado, desde o princípio dos anos 60 aos pintores da escola de Barbizon, Jongkind mantém a sua distante postura nórdica. Num curiosíssimo texto que Émile Zola publica a 24 de Janeiro de 1872 num jornal parisiense pode ler-se: «Parmi les naturalistes qui ont su parler de la nature en une langue vivante et originale, une des plus curieuses figures est certainement le peintre Jongkind. Je ne connais pas d’individualité plus intéressante. Il est artiste jusqu’aux moelles. Il a une façon si originale de rendre la nation humide et vaguement souriante du Nord, que ses toiles parlent une langue particulière, langue de naïveté et de douceur. Il aime d’un amour fervent les horizons hollandais, pleins d’un charme mélancolique; il aime la grande mer, les eaux blafardes des temps gris et les eaux gaies et miroitantes des jours de soleil. Il est fils de cet âge qui s’intéresse à la tache claire ou sombre d’une barque, aux mille petites existences des herbes.»

Jongkind, Vue de Delft, 1844.

Esta atitude discreta de Jongkind não o retira, históricamente, desse lugar de percurssor do impressionismo. A sua ligação a Monet e a Manet é disso uma evidência. Mas, principalmente, nos últimos vinte anos da sua vida (Jongkind morre em 1891) ele afirma-se como o conciliador subtil entre uma tradição académica e todo um conjunto de novas ideias e posturas. Por um lado, mantém gráficamente um registo seguro e um tanto ou quanto duro. Mas, pictóricamente, Jongkind liberta de alguma maneira a cor e a pincelada, como aliás o assinala Paul Signac: «(...) il répudie la teinte plate, morcelle la couleur, fractionne sa touche à l’infini (...)».
Mas, mais do que uma simples inovação técnica, Jongkind propõe uma radical mudança de atitude relativamente ao assunto. Ao relativizar o sujeito da pintura, ele abre caminho e antecipa a banalidade dos assuntos impressionistas, concentrando a sua atenção na linguagem plástica. Não sendo um pintor audaz que rompa com as convenções e com as regras, Jongkind mantem-se como o traço de união entre a pintura romântica, de natureza académica, e as novas ideias sobre a luz, a cor e a representação. A sua pintura respira já a atmosfera de modernidade do impressionismo.


Jongkind, Vu des falaises et de la plage d'Étretat, aguarela, 1851.

sábado, 11 de setembro de 2004

 
Correio da Cassini





A small newly found object, temporarily designated S/2004 S 3, has been seen orbiting Saturn's outer F ring. The tiny object, seen in this movie centered in a green box, orbits the planet at a distance of approximately 141,000 kilometers (86,420 miles) from the center of Saturn. Its nature, moon or clump, is not presently known.


 
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11 de Setembro de 2001

Quantas vidas e corpos e sonhos e medos e gestos e dias e gritos e murmúrios e orações e memórias... se misturam com o pó do betão pulverizado, com o dantesco ruído dos ferros torcidos. O inferno somos nós.


quinta-feira, 9 de setembro de 2004

 
Grandezas não-comparáveis
Equívocos contemporâneos (na política, na economia, nos movimentos sociais, na religião e na arte)

«O movimento não existe: Aquiles não poderá alcançar a preguiçosa tartaruga»

Escrevo desta maneira a sua exposição: Aquiles, símbolo da rapidez, tem de alcançar a tartaruga, símbolo da lentidão. Aquiles corre dez vezes mais depressa que a tartaruga e dá-lhe dez metros de vantagem. Aquiles corre esses dez metros, a tartaruga corre um decímetro; Aquiles corre esse decímetro, a tartaruga corre um centímetro; Aquiles corre esse centímetro, a tartaruga corre um milímetro; Aquiles o milímetro, a tartaruga um décimo de milímetro, e assim infinitamente, de modo que Aquiles pode correr para sempre sem a alcançar. É este o paradoxo imortal.
Passo às chamadas refutações. As de mais anos – a de Aristóteles e a de Hobbes – estão implícitas na formulada por Stuart Mill. O problema, para ele, não é senão um dos tantos exemplos da falácia da confusão. Com esta distinção, julga anulá-lo:
Na conclusão do sofisma, para sempre quer dizer qualquer imaginável lapso de tempo; nas premissas, qualquer número de subdivisões de tempo. Significa que podemos dividir dez unidades por dez, e o quociente outra vez por dez, quantas vezes quisermos, e que não chegam ao fim as subdivisões do percurso, nem por conseguinte as do tempo em que se realiza. Mas pode efectuar-se um ilimitado número de subdivisões com o que é limitado.
(...)
Prova, em suma que atravessar esse espaço finito requer um tempo infinitamente divisível, mas não infinito (Mill, Sistema de Lógica, livro quinto, capítulo sete).
Não antevejo o parecer do leitor, mas pressinto que a projectada refutação de Stuart Mill não passa de uma exposição do paradoxo.
(...)
Outra vontade de refutação foi comunicada em 1910 por Henri Bergson, no conhecido Ensaio sobre Dados Imediatos da Consciência: nome que começa por ser uma declaração de princípios. Aqui está a sua página:
Por um lado, atribuímos ao movimento a própria divisibilidade do espaço que percorre, esquecendo que se pode dividir um objecto, mas não um acto; por outro, habituámo-nos a projectar este mesmo acto no espaço, a aplicá-lo à linha que percorre o móvel, numa palavra, a solidificá-lo. É desta confusão entre o movimento e o espaço percorrido que nasceram, na nossa opinião, os sofismas da escola de Eleia; porque o intervalo que separa dois pontos é infinitamente divisível, e se o movimento se compusesse de partes como as do intervalo, nunca o intervalo seria franqueado. Mas a verdade é que cada um dos passos de Aquiles é um indivisível acto simples, e que após um dado número destes actos, Aquiles ter-se-ía adiantado à tartaruga. A ilusão dos Eleatas provinha da identificação desta série de actos individuais sui generis com o espaço homogéneo que os apoia. (...) Por Aquiles perseguindo uma tartaruga substituíram, na realidade, duas tartarugas reguladas uma pela outra, duas tartarugas de acordo em dar a mesma série de passos ou de actos simultâneos, para nunca se alcançarem.
(...)
O argumento é concessivo. Bergson admite que é infinitamente divisível o espaço, mas nega que o seja o tempo.
(...)
Chego, por eliminação, à única refutação que conheço, a única de inspiração condigna do original, virtude que a estética da inteligência está a reclamar. É a formulada por Russell. Encontrei-a na obra nobilíssima de William James, Some Problems of Philosophy e pode estudar-se a concepção total que postula nos livros ulteriores do seu inventor – Introduction to Mathematical Philosophy, 1919; Our Knowledge of the External World, 1926 -, livros de uma lucidez inumana, insatisfatórios e intensos. Para Russell, a operação de contar é (intrínsecamente) a de equiparar duas séries. Por exemplo, se os primogénitos de todas as casas egípcias foram mortos pelo Anjo, salvo os que habitavam em casa que tinha já na porta um sinal vermelho, é evidente que se salvaram tantos como os sinais vermelhos que havia, sem que isto implique enumerar quantos foram. Aqui é indefinida a quantidade; outras operações há em que também é infinita. A série natural dos números é infinita, mas podemos demontrar que são tantos os ímpares como os pares.
(...)
O problema de Aquiles cabe dentro desta resposta heróica. Cada sítio ocupado pela tartaruga mantém a proporção com outro de Aquiles, e a minuciosa correspondência, ponto por ponto, de ambas as séries simétricas, basta para as reclamar iguais. Não fica nenhum resto periódico da vantagem inicial dada à tartaruga: o ponto final no seu trajecto, o último no trajecto de Aquiles e o último no tempo da corrida, são termos que matematicamente coincidem.
(...)
O paradoxo de Zenão de Eleia, conforme indicou James, é atentatório não só da realidade do espaço, como também da mais subtil e invulnerável do tempo. Acrescento que a existência num corpo físico, a permanência imóvel, o fluir de uma tarde na vida correm os riscos do acaso devido a ela. Esta decomposição dá-se unicamente por meio da palavra infinito, palavra (e depois conceito) angustiante que engendrámos com temeridade e que, uma vez consentida num pensamento, explode e o mata.
(...)
Aceitemos o idealismo, aceitemos o crescimento concreto do percebido e evitaremos o popular dos abismos do paradoxo.

J.L. Borges in Discussão, 1932

quarta-feira, 8 de setembro de 2004

 
Cartas de Paris (5)

Alechinsky – Cinquenta anos de desenhos (1)


O inventor de metáforas
«Dessiner, c’est s’interroger», escreve Alechinsky.
É esta interrogação viva, fundamental que surge como o estímulo, ao longo de cinquenta anos, de uma obra cujo autor elege o desenho como o medium do pensamento e da aparição da imagem. Com Alechinsky, o desenho nunca é estudo preparatório. O desenho surge sempre de um motivo ou de um suporte com a menor informação possível e também com a menor história possível: toda a categoria de memórias, de traços que se sobrepõem em extractos complexos, num jogo turbulento de aparições e desaparições, são apostos em todo o tipo de suportes: papéis antigos do século XVIII e XIX, papéis chineses, coreanos, velhos papéis manuscritos, impressos, documentos vários.


Pierre Alechinsky, L'homme est un (loup) pour l'homme, 1962.

«Uma grande quantidade de água» no que poderia transformar-se numa aguada informe; mas Alechinsky intervém com uma extraordinária acuidade tentando libertar, num primeiro instante, a vitalidade do signo ou da palavra, a vitalidade metamórfica da imagem.
Alechinsky é um desenhador. Um inventor de formas imprevistas. Uma permanente interrogação sobre a redefinição dos espaços.

Pierre Alechinsky, Sous le feu, 1967.



terça-feira, 7 de setembro de 2004

 
Correio da Cassini


3 September 2004
The NASA/ESA/ASI Cassini-Huygens spacecraft returned this colour image of Saturn's rings, along with three of Saturn's smaller moons, viewed at a distance of 8.2 million kilometres.

segunda-feira, 6 de setembro de 2004

 
Cartas de Paris (2)
Vasculhando fotografias antigas.


Explosão de obuses, anónimo, 1914/18.

Mais fotografias de guerra. Desta vez da I Grande Guerra. A fotografia, de alguma forma, veste-se de modernidade. Ao contrário do que aconteceu com a guerra da Crimeia, aqui é o Ministério dos Assuntos Externos que, em colaboração com o Ministério da Instrução Pública e das Belas Artes, contrata cerca de 60 fotógrafos para cobrirem oficialmente os combates e tudo o que se relaciona com a guerra. Os fotógrafos permanecem anónimos. A maioria deles são soldados.


Homens no atelier de pintura do campo de Holzminden, M. Boudinhou, 1916.

Desde 1888 que a empresa Kodak começou a comercializar pequenas camaras, leves e de fácil manuseamento. Estes pequenos aparelhos são distribuidos por muitos soldados na I Guerra Mundial. Daí o grande número de fotografias de autor anónimo.
O jornalista Jules Claretie comenta: «Hoje em dia, o verdadeiro pintor da guerra chama-se Kodak».
Muitas destas fotografias de guerra fazem parte dos álbuns de fotografias das famílias dos soldados.


Ferido na mesa de operações rodeado pelos médicos, Henri Manuel, 1916.

Dos álbuns de George Salles, neto de Gustave Eiffel, as fotografias tiradas por Henri Manuel no Hospital da União das Mulheres Francesas, hospital que a mãe de Georges Salles, Claire Salles, dirigiu durante a I Grande Guerra.
Vasculhando fotografias antigas.


Explosão de obuses, anónimo, 1914/18.

sábado, 4 de setembro de 2004

 
Correio da Cassini


Comprimento, altura, largura. Phoebe em 3 dimensões. O Universo em 3 dimensões. E há ainda o tempo, essa imensa dimensão que ocupa todas as outras. Também está aqui. Visível.

quinta-feira, 2 de setembro de 2004

 
Rússia:
A vida de 50 crianças pela vida de cada guerrelheiro.
O que terá para dizer este (ou esta) guerrelheiro aos seus filhos, sobrinhos? Que a sua vida vale a vida de 50 crianças? Em nome de quê? Em nome de quem? Viva Marx e Lenine, viva a liberdade, viva a independência...
A hipocrisia não tem limites...


Coisas que já nem são ideologias mas simples conjuntos de ideias, restos no canto do prato, conseguem ainda produzir estas consequências. O inferno somos nós.


quarta-feira, 1 de setembro de 2004

 
Alheio à nossa ínfima dimensão mental, o Sol respira assim hoje.



 
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Barco do aborto

WHAT, then, is the rightful limit to the sovereignty of the individual over himself? Where does the authority of society begin? How much of human life should be assigned to individuality, and how much to society?
1
Each will receive its proper share, if each has that which more particularly concerns it. To individuality should belong the part of life in which it is chiefly the individual that is interested; to society, the part which chiefly interests society.
2
Though society is not founded on a contract, and though no good purpose is answered by inventing a contract in order to deduce social obligations from it, every one who receives the protection of society owes a return for the benefit, and the fact of living in society renders it indispensable that each should be bound to observe a certain line of conduct towards the rest. This conduct consists first, in not injuring the interests of one another; or rather certain interests, which, either by express legal provision or by tacit understanding, ought to be considered as rights; and secondly, in each person's bearing his share (to be fixed on some equitable principle) of the labours and sacrifices incurred for defending the society or its members from injury and molestation. These conditions society is justified in enforcing at all costs to those who endeavour to withhold fulfilment. Nor is this all that society may do. The acts of an individual may be hurtful to others, or wanting in due consideration for their welfare, without going the length of violating any of their constituted rights. The offender may then be justly punished by opinion, though not by law. As soon as any part of a person's conduct affects prejudicially the interests of others, society has jurisdiction over it, and the question whether the general welfare will or will not be promoted by interfering with it, becomes open to discussion. But there is no room for entertaining any such question when a person's conduct affects the interests of no persons besides himself, or needs not affect them unless they like (all the persons concerned being of full age, and the ordinary amount of understanding). In all such cases there should be perfect freedom, legal and social, to do the action and stand the consequences.
3
It would be a great misunderstanding of this doctrine to suppose that it is one of selfish indifference, which pretends that human beings have no business with each other's conduct in life, and that they should not concern themselves about the well-doing or well-being of one another, unless their own interest is involved. Instead of any diminution, there is need of a great increase of disinterested exertion to promote the good of others. But disinterested benevolence can find other instruments to persuade people to their good, than whips and scourges, either of the literal or the metaphorical sort. I am the last person to undervalue the self-regarding virtues; they are only second in importance, if even second, to the social. It is equally the business of education to cultivate both. But even education works by conviction and persuasion as well as by compulsion, and it is by the former only that, when the period of education is past, the self-regarding virtues should be inculcated. Human beings owe to each other help to distinguish the better from the worse, and encouragement to choose the former and avoid the latter. They should be for ever stimulating each other to increased exercise of their higher faculties, and increased direction of their feelings and aims towards wise instead of foolish, elevating instead of degrading, objects and contemplations. But neither one person, nor any number of persons, is warranted in saying to another human creature of ripe years, that he shall not do with his life for his own benefit what he chooses to do with it. He is the person most interested in his own well-being: the interest which any other person, except in cases of strong personal attachment, can have in it, is trifling, compared with that which he himself has; the interest which society has in him individually (except as to his conduct to others) is fractional, and altogether indirect: while, with respect to his own feelings and circumstances, the most ordinary man or woman has means of knowledge immeasurably surpassing those that can be possessed by any one else. The interference of society to overrule his judgment and purposes in what only regards himself, must be grounded on general presumptions; which may be altogether wrong, and even if right, are as likely as not to be misapplied to individual cases, by persons no better acquainted with the circumstances of such cases than those are who look at them merely from without. In this department, therefore, of human affairs, Individuality has its proper field of action. In the conduct of human beings towards one another, it is necessary that general rules should for the most part be observed, in order that people may know what they have to expect; but in each person's own concerns, his individual spontaneity is entitled to free exercise. Considerations to aid his judgment, exhortations to strengthen his will, may be offered to him, even obtruded on him, by others; but he himself is the final judge. All errors which he is likely to commit against advice and warning, are far outweighed by the evil of allowing others to constrain him to what they deem his good.

John Stuart Mill (1806–1873). On Liberty. 1869. Chapter IV: Of the Limits to the Authority of Society over the Individual


Poderia ser interessante - se houvesse jornalismo em Portugal - investigar quem patrocina (quem paga) estas iniciativas. Poder-se-ía descobrir algo semelhante ao famoso Green Peace, patrocinado pelas grandes indústrias poluidoras do vale do Reno. Talvez aqui as grandes empresas farmacêuticas estejam por detrás destas iniciativas não-governamentais.
A hipocrisia não tem limites...

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