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sábado, 14 de fevereiro de 2009

 
Sentir-se na Morte




Desejo registar aqui uma experiência que tive há umas noites: ninharia demasiado evanescente e estática para lhe chamar aventura; demasiado irrazoável e sentimental para pensamento. Trata-se de uma cena e da sua palavra: palavra já antes dita por mim, mas não vivida até então com total dedicação. Passo a historiá-la, com os acidentes de tempo e de lugar que a declararam.
Rememoro-a assim. Na tarde que antecedeu essa noite, estive em Barracas: localidade que não visito por hábito e cuja distância das que depois percorri já deu um estranho sabor a esse dia. Na sua noite não tinha destino algum; como estava bom tempo, saí para caminhar e recordar, depois de jantar. Não quis determinar rumo a esta caminhada; procurei uma máxima latitude de probabilidades para não cansar a expectativa com a obrigatória antevisão de uma única delas. Realizei apenas na medida do possível isso a que chamam andar ao acaso; aceitei, sem outro consciente preconceito além do de olhar de soslaio as avenidas ou as ruas largas, os mais obscuros convites da casualidade. Contudo, uma espécie de gravitação familiar afastou-me para uns bairros, de cujo nome quero sempre recordar-me e que exigem reverência ao meu peito. Não quero com isto significar o meu bairro, o preciso âmbito da infância, mas sim as suas ainda misteriosas imediações, confins que possuí inteiramente em palavras e pouco na realidade, vizinhos e mitológicos ao mesmo tempo. O reverso do conhecido, as suas costas, são para mim essas ruas penúltimas, quase tão efectivamente ignoradas como os soterrados alicerces da nossa casa ou o nosso invisível esqueleto. A caminhada deixou-me numa esquina. Aspirei a noite, em sereníssimo ócio de pensar. A visão, nada complicada certamente, parecia simplificada pelo meu cansaço. Irrealizava-a a sua própria tipicidade. A rua era de casas baixas e, embora o seu primeiro significado fosse de pobreza, o segundo era certamente de felicidade. Era do mais pobre e do mais belo que podia haver. Nenhuma casa estava animada na rua; a figueira escurecia sobre um quintal; as cancelas — mais altas que as linhas direitas das paredes — pareciam feitas da mesma substância infinita da noite. O passeio era escarpado sobre a rua, a rua era de terra batida, terra da América ainda não conquistada. Ao fundo, a azinhaga, já descampada, desmoronava-se para o Maldonado. Sobre a terra turva e caótica, uma cerca rosada parecia não albergar a luz do luar, mas sim derramar uma luz íntima. Não haverá melhor maneira de definir a ternura que este rosado.
Fiquei a observar a simplicidade. Pensei, com segurança, em voz alta: "Isto é o mesmo de há trinta anos..." Conjecturei esta data: época recente noutros países, mas já remota neste inconstante lado do mundo. Talvez cantasse um pássaro e senti por ele um carinho infantil, do tamanho de pássaro; mas o mais seguro é que nesse já vertiginoso silêncio não houve outro rumor para além do também intemporal dos grilos. O fácil pensamento "Estou em mil oitocentos e tantos" deixou de ser umas quantas palavras aproximativas e aprofundou-se até à realidade. Senti-me morto, senti-me percebedor abstracto do mundo; indefinido temor imbuído de ciência que é a melhor clareza da metafísica. Não acreditei, isso não, que tinha remontado a presumíveis águas do Tempo; antes me suspeitei possuidor do sentido reticente ou ausente da inconcebível palavra eternidade. Só depois consegui definir essa imaginação.
Escrevo-a, agora, assim: Esta pura representação de factos homogéneos — noite em serenidade, ar límpido, cheiro provinciano da madresilva, terra batida — não é simplesmente idêntica à que houve nessa esquina há tantos anos; sem parecenças nem repetições, é a mesma. O tempo, se pudermos intuir esta identidade, é uma desilusão: para o desintegrar, bastam a indiferença e a inseparabilidade de um momento do seu aparente ontem e de outro momento do seu aparente hoje.
É evidente que o número destes momentos humanos não é infinito. Os elementares — os de sofrimento físico e de gozo físico, os de aproximação do sonho, os de audição de uma só música, os de muita intensidade ou de grande apatia — são mais impessoais ainda. Faço derivar de antemão esta conclusão: a vida é demasiado pobre para não ser também imortal. Mas nem sequer temos a segurança da nossa pobreza, visto que o tempo, facilmente refutável no sensitivo, também não o é no intelectual, de cuja essência parece inseparável o conceito de sucessão. Fique portanto num episódio emocional a vislumbrada ideia e na confessada irresolução desta folha de papel o momento verdadeiro de êxtase e a insinuação possível de eternidade de que esta noite não me foi avara.


Jorge Luis Borges in Outras Inquirições, 1952.



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